Dados, estudos e sistemas de conhecimento

Capítulo 7

Dados, estudos e sistemas de conhecimento

pra você que tá sem tempo...

Os indígenas e os públicos engajados/interessados foram convidados a comentar a relevância e o impacto de estudos que mostram a importância dos povos indígenas para a conservação das florestas e para as soluções climáticas. Uma parcela destacou a atenção que começou a ser dada aos povos indígenas por órgãos e fóruns internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), como resultado de uma série de pesquisas, artigos científicos e relatórios produzidos nas últimas décadas. 

Apesar de críticas pontuais ao que foi chamado de relação utilitarista com os indígenas, a maioria dos entrevistados descreveu os estudos como relevantes e importantes, ainda que não tenham sido devidamente divulgados ou considerados para a formulação de políticas públicas no país. 

Trabalhos de organizações brasileiras foram os mais citados pelos públicos engajados. Os dados disponibilizados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) foram citados recorrentemente mais uma vez. Entre estudos específicos, os do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), como o que mostra porque as terras indígenas são importantes barreiras ao desmatamento e reservas de carbono, foram os mais lembrados. 

Carlos Nobre, Antônio Nobre, Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Neves foram os nomes mais mencionados, especialmente pelos próprios cientistas, jornalistas da grande imprensa e ONGs ambientalistas, e Eduardo Viveiros de Castro, por jornalistas e entrevistados do campo da arte e da cultura.  

A participação efetiva de indígenas em projetos de pesquisas; a inserção do conhecimento tradicional como conhecimento científico e tecnologia; e a necessidade de novas formas de (co)produção de conhecimento estiveram entre as principais ponderações dos entrevistados, especialmente os indígenas. 

Propostas e projetos de pesquisa que vêm sendo elaborados tentando incorporar em alguma medida essas questões foram destacados. A Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), chamada de “IPCC da biodiversidade”, foi descrita por cientistas como uma grande novidade nesse sentido. O relatório global IPBES, lançado em 2019, desenvolveu mecanismos para a integração do conhecimento indígena, tradicional e local no aperfeiçoamento da governança global da biodiversidade. 

O Painel Científico para a Amazônia (SPA, sigla em inglês) e o Amazônia 4.0 foram os projetos mais citados entre os que “tentam inovar na participação e inclusão de povos tradicionais na elaboração de caminhos sustentáveis para o bioma”. O SPA, iniciativa composta por mais de 200 cientistas e pesquisadores da Amazônia, lançou seu primeiro relatório durante a COP26 e pediu o embargo do desmatamento de áreas críticas da Amazônia e a garantia de direitos dos povos indígenas. 

Mais do que comentar a importância e o impacto de estudos científicos, o reconhecimento da ONU e quetais, diversos entrevistados estavam interessados em apontar o enorme crescimento de estudantes indígenas nas universidades e o número cada vez maior e mais importante de dissertações em diferentes campos como uma das principais novidades da última década.  Em 2018, eram 57.706 indígenas matriculados em universidades no país, um crescimento de 695% em relação a 2010.  

Outro destaque foram os novos cursos e programas voltados aos saberes tradicionais e experiências de ensino e pesquisa pluriepistêmica e não-hegemônicos que vêm sendo estabelecidos nas universidades, como o Programa de Formação Transversal em Saberes Tradicionais, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Além disso, diversas lideranças e artistas têm recebido título de notório saber, como Sueli Maxacali, Ailton Krenak e Babau Tupinambá. Davi Kopenawa foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Ainda que o contexto político seja completamente desfavorável, os juristas destacaram que faltam estudos sobre a realidade indígena nos territórios e de laudos antropológicos para processos de demarcação de territórios indígenas, um trabalho que poderia avançar em parceria com as universidades. “Esse é um dos temas mais urgentes do país há tempos." 

Além da agenda climática e das cosmologias indígenas, o tema da alimentação foi o mais comentado, visto com maior potencial de conectar a população não indígena. Os sistemas alimentares; a soberania alimentar; a agroecologia; a agricultura regenerativa; e a contribuição da produção de alimentos por povos tradicionais foram descritos como assuntos que devem ganhar ainda mais atenção nos próximos anos. 

Restauração florestal, pagamento por serviços ambientais, índices ESG, relação clima-floresta-recursos hídricos, cadeias e financiadores globais de desmatamento, resiliência e justiça climática, economia do bem viver e os bens comuns, justiça de transição e reparação histórica e a abordagem transfronteiriça desses assuntos foram apontados como outros temas emergentes. 

Os públicos não engajados aspiram por circulação de “informações de boa qualidade”. Dentre eles, os economistas foram os que mais demandaram estudos acadêmicos, relatórios de instituições e fontes mais variadas de informação. Os jornalistas regionais valorizam a produção de universidades e institutos locais e lamentam que não tenham alcance em todo o Brasil.

“No momento, não importa a qualidade do estudo produzido. A gente está em um país negacionista da ciência.”

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“Os povos indígenas e tribais são os melhores guardiões das florestas da América Latina e do Caribe. As taxas de desmatamento na América Latina e no Caribe são significativamente mais baixas em territórios indígenas e de comunidades tradicionais onde os governos reconhecem formalmente os direitos territoriais coletivos”, conclui e detalha um relatório lançado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 2021, elaborado com base em mais de 300 estudos publicados nas últimas duas décadas.

Os indígenas e os públicos engajados/interessados entrevistados para a pesquisa foram convidados a comentar sobre a relevância e o impacto desses estudos e de outros no Brasil na última década. Entre os formadores de opinião de públicos não engajados, buscamos identificar se conheciam esses dados e pesquisas. 

Muitas outras questões surgiram durante as entrevistas, como o amplo conhecimento científico no Brasil a respeito de saberes dos povos indígenas, especialmente os da Amazônia; os esforços mais recentes para reuni-los e sintetizá-los, muitos ainda circunscritos à academia e voltados a elaborar propostas para uma Amazônia sustentável; a regularização fundiária e a demarcação de terras indígenas como uma agenda há muito urgente do país; as iniciativas, os caminhos e os desafios para incorporar conhecimentos indígenas como parte do que hoje é considerado e aceito pela ciência ocidental; a ‘revolução silenciosa’ das cotas para estudantes indígenas nas universidades. 

Uma parcela dos entrevistados destacou e reconheceu a atenção e o espaço que começaram a ser dados aos povos indígenas nas conferências climáticas, no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), na FAO e em outros órgãos e fóruns internacionais como resultado de uma sucessão de pesquisas, artigos científicos e relatórios de ONGs produzidos nas últimas décadas.

Crédito: Reprodução Instagram
“Hoje, o IPCC reconhece os povos indígenas como atores cruciais para as metas climáticas. Isso é uma grande vitória, é um indicativo do bem sucedido trabalho da academia e da sociedade civil, que conseguiram fornecer dados e evidências para que isso acontecesse.”
(ONG internacional)
“Foi um grande marco a sucessão de papers científicos e relatórios de ONGs que mostram que o desmatamento é muito menor em terras indígenas, menor até que em unidades de conservação.”
(Assessor de Comunicação)
"​​É difícil citar um nome porque o recorte é muito enviesado para aquilo que a gente trabalha, né? O conjunto de trabalhos que foi feito mostrando a questão de como os indígenas seguraram a questão do desmatamento na Amazônia, são dados muito concretos sobre o potencial de mitigação, sobre o que se traduz naquilo que é a moeda que esse mundo conversa, que é toneladas de carbono por hectare.”
(Cientista)
“Apesar de infindáveis estudos, disso estar mais que provado, acho que as pessoas estão começando a se dar conta disso só agora. Achei que fosse parte do senso comum, mas, se fosse, esse último estudo da ONU não teria tido o impacto que teve. A minha reação quando eu vi aquilo foi: ‘ah, mais um’. Na verdade, não foi mais um, foi assim, big news.”
(Jornalista)

Legenda: IPCC reconhece o papel dos povos indígenas e comunidades locais no combate às mudanças climáticas

Crédito: If Not Us Then Who

Pouco difundidos. É preciso bater na tecla, incansavelmente!

Mais do que os estudos elaborados por instituições internacionais, foram os trabalhos de organizações brasileiras os mais mencionados espontaneamente por públicos engajados. Entre estudos específicos, os do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) foram os mais lembrados, especialmente por cientistas e sociedade civil, como os que mostram porque as terras indígenas são importantes barreiras ao desmatamento e reservas de carbono na Amazônia. A maior parte dos indígenas não mencionou nomes de instituições, ou pesquisas específicas.

Carlos Nobre, Antônio Nobre, Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Neves foram os nomes mais lembrados, especialmente pelos próprios cientistas, jornalistas da grande imprensa e ONGs ambientalistas; e Eduardo Viveiros de Castro, por jornalistas e entrevistados do campo e da cultura.

“Acho que a ciência e, sobretudo, os estudos que, com apoio do sensoriamento remoto, começaram a entender as dinâmicas de uso da terra no Brasil, trouxeram uma luz que põe o papel desses territórios em uma outra escala. E, ao mesmo tempo, aí veio o outro lado: ‘nossa, mas olha, tudo isso aqui é terra indígena’.”
(Cientista)
"Tem o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, que traz uma visualização muito importante. O MapBiomas tá avançando também. Isso é uma coisa que o ISA já fazia, num certo sentido. O ISA foi pioneiro em toda área de cartografia, imagem de satélite, mas isso hoje tá ganhando uma outra escala.”
(Antropólogo)

Crédito: Reprodução facebook

“Por mais que a nossa ciência esteja super capenga, tem muita coisa produzida, não dá para jogar tudo fora. Acho que tem estudos muito interessantes, dos irmãos Nobre, do Paulo Artaxo, tem o Inpe, o Inpa, uma série de estudos que conectam floresta e economia.”
(Cientista)
“​​Em 2015 ou 2016, o Ipam fez um estudo, um relatório grande sobre as terras indígenas na Amazônia brasileira, no qual colocam de maneira muito clara porque são importantes barreiras ao desmatamento e reservas de carbono. Era nesse momento que os relatórios do IPCC começaram a olhar a Amazônia não apenas como reservatório de biodiversidade, mas como uma região importante para evitar mais problemas com relação à crise climática. O relatório foi bem divulgado no Brasil, inclusive pela mídia.”
(Cientista)
“Há um conjunto de estudos do World Resources Institute – WRI que quantificou o benefício econômico da proteção dos territórios indígenas. É claro que grupos indígenas não quantificam as coisas como o nosso modelo ocidental, que precisa medir tudo, que não valoriza as coisas a menos que tenham um número, mas foi justamente por isso que esses trabalhos receberam atenção."
(Jornalista internacional)

Ainda que considerados marcos importantes e influentes entre nichos específicos, a maior parte de entrevistados de públicos interessados/engajados, incluindo os cientistas e os indígenas, afirmaram que esses estudos ainda não foram devidamente divulgados, ou considerados para a formulação de políticas públicas no país. Um pequeno número se lembrou de estudos que deram respaldo à formulação de políticas públicas como a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) e a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). 

“Precisamos aprofundar e divulgar mais isso. É uma demanda que venho apresentando com muita frequência, a importância de usar mais os dados sobre a contribuição dos nossos territórios para o clima e para o meio ambiente. Ainda há muito desconhecimento sobre isso.”
(Liderança indígena)
“Como cineasta amigo da causa indígena e ambientalista, eu diria que é esse o caminho, mas falta uma estratégia de comunicação eficiente.”
(Cineasta)
“Eu acho que o problema não é a falta de dados, dados a gente tem. Mas os achados de pesquisa científica ficam na academia, ficam nas ONGs, ficam com os especialistas que estão trabalhando, ou ficam com as empresas de cosméticos que estão se apropriando dessas coisas dos ativos. Acho que a gente faz pouco uso disso. Temos a informação, mas não agimos sobre a informação.”
(Doadora nacional)
“Acho que esses estudos tiveram sim alguma visibilidade. Mas as coisas precisam ter continuidade, porque a galera esquece. É preciso bater na tecla, incansavelmente. A gente tem amor pelo tema e você vai atrás, mas em termos de divulgação dessas pesquisas, acho muito carente.”
(Jornalista)
“Os estudos são importantíssimos, mas pouco difundidos. Eles estão aí para derrubar a ‘religião agro’, da monocultura, da exportação de commodities, etc, que fazem da gente um país mais pobre.”
(Escritora)

Legenda: Webinário O que podemos aprender com o conhecimento ancestral indígena?

Crédito: Ipam Amazônia

“A campanha que eu faço não é só em termos de promoção da cultura indígena, mas de modificação da cultura científica. Os cientistas recebem muita pressão para publicar com o ‘compliquês’ para ser aceito por seus próprios pares, mas acabam não chegando à sociedade."
(Cientista)
"Às vezes, essa linguagem técnica não reflete o que os indígenas diriam. Costumamos dizer, por exemplo, que a mãe terra está doente.”
(Liderança indígena)

Alguns entrevistados, em particular jornalistas, reconheceram esforços de cientistas em busca de melhor comunicação com a sociedade.

“Eu vejo cientistas brasileiros, cada vez mais, falando sobre problemas reais. Carlos Nobre, Antonio Nobre, Raoni Rajão, Mercedes Bustamante, tem um monte de cientistas. Eles apareceram com muito mais força nos últimos tempos e acho que estão aprendendo a se comunicar melhor. Não adianta só o artigo científico, né? O artigo científico é muito importante para o cientista, mas o cientista tem que contar que o artigo científico existe, pra quê ele existe e todo o resto."
(Jornalista)
subcapítulo

Rios voadores, considerado um exemplo de sucesso

Ainda que não especificamente sobre povos indígenas e comunidades tradicionais, o fenômeno conhecido como rios voadores foi o exemplo mais citado de projeto com ampla divulgação científica, hoje uma referência para a imprensa e diferentes públicos. 

“A questão dos rios voadores foi um sucesso para elevar a importância da Amazônia. Ali se conseguiu traduzir em quatro bullets a relação entre quem mora no Sudeste e a floresta."
(Doador nacional)
Crédito: Árvore Ser Tecnológico
“O fenômeno dos rios voadores é um ótimo exemplo, porque ele virou quase uma entidade nacional, é tratado como uma teoria amplamente aceita.”
(Assessor de Comunicação)
“A história dos rios voadores foi uma sacada genial. Uma ideia simples de entender, que cria uma imagem muito forte e poderosa, e atingiu dois públicos alvos: povo do agrobusiness e das áreas urbanas do Sudeste. Além disso, o Antonio Nobre é um ótimo comunicador.”
(Cientista)
“Essa é uma narrativa científica recente que contribuiu para compreensão do público de conceitos importantes. É muito bonita, muito fácil de entender e também mexe com a nossa imaginação. Por isso que pegou.”
(Cientista)

O Projeto Rios Voadores teve início em 2007 e foi idealizado a partir de longas  conversas entre o aviador Gérard Moss (falecido em 2022) e o pesquisador do Inpe Antonio Nobre, e subsequente colaboração de Eneas Salati e outros cientistas envolvidos no tema como José Marengo, Pedro Dias e Reinaldo Victoria. 

O projeto contou com patrocínio da Petrobras, por anos, para atividades de divulgação e de educação ambiental que incluíram expedições, produção de materiais e atividades em escolas ao redor do país. 

Segundo o cientista Antonio Nobre, a divulgação foi um sucesso porque foi empacotada em uma narrativa gostosa, impressionante, que trata a audiência como uma criança empolgada, interessada em aprender mais. 

“Como é que é isso? Então tem rios de vapor no ar? A campanha tem que produzir brilho nos olhos e não a sensação de culpa. Falar do uso excessivo de água, energia etc, você está atuando no campo da culpa. A grande maioria das pessoas se fecha pra isso. Acho que é um exemplo de como se adaptar ao ‘short attention-span’ do mundo de hoje. O resultado, inclusive, retro fertilizou a própria comunidade científica.”
“As pautas ambientais são, se você quiser, podem facilmente ser rotuladas como antissociais. Você quer diminuir consumo de combustível fóssil, aumentar o preço da gasolina, que em todo lugar é uma pauta explosiva. Você quer evitar o aumento das emissões do desmatamento na Amazônia, e pra isso o Carlos Nobre fala que tem que reduzir o consumo de carne. Agora, a pergunta é: a gente vai ficar nessa, ou você vai criar substitutos que possam dar luz a essa discussão de uma outra maneira?”
(ONG nacional)

Crédito: Grupo Gedai

Na segunda parte do sumário executivo do Painel Científico para a Amazônia (SPA), sobre a Presença Humana e Diversidade Sociocultural na Amazônia, foi ressaltado que cerca de 50 das 125 línguas isoladas do mundo são encontradas na Amazônia. “Com mais de 10 línguas isoladas nas cabeceiras dos rios Guaporé e Mamoré, região do tamanho da Alemanha, o sudoeste da Amazônia abriga uma das maiores incidências de isolados linguísticos do planeta.”

“A perda linguística acontece há 500 anos mas, esse enfraquecimento da transmissão linguística tem levado a situações extremas, com línguas que têm de um a cinco falantes. A Covid-19 foi terrível nesses casos críticos levando os últimos falantes. Por outro lado, de uns anos para cá, estamos assistindo a processos muito interessantes de retomada, de revitalização linguística. Há uma série de projetos para registrar essas línguas, com a novidade de pesquisadores indígenas agora também nas universidades.”
(Antropóloga)
“A língua é viva, se não for, é difícil aprender. Os Guarani são muito avançados nesse sentido, estão na linha de frente há muito tempo. As crianças falam Guarani. Uma resistência maravilhosa. No Acre, há experiências maravilhosas. Dizem que os Gavião pintam, mas já não falam.”
(Cineasta)
"Nenhum sistema é saudável sem diversidade, como um sistema biológico e um sistema cultural. E, portanto, eles estão profundamente conectados – a diversidade humana, cultural e linguística."
(Doadora internacional)
"Línguas indígenas é uma área que tem muita falta, deficiência. A gente não tem um programa, por exemplo, de pós-graduação em linguística num estado (Amazonas) que tem o maior número de línguas indígenas no Brasil."
(Cientista)

Em uma pesquisa da Universidade de Zurique, cientistas analisaram 3.597 espécies vegetais e 12.495 usos medicinais associados a 236 línguas indígenas na América do Norte, Nova Guiné e noroeste da Amazônia e estimaram que 75% dos usos de plantas medicinais no mundo são conhecidos em apenas um idioma.

Crédito: Rodrigo Cámara-Leret e Jordi Bascompt

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estima que 43% das cerca de 6.000 línguas faladas no mundo estão ameaçadas de extinção e para aumentar a consciência sobre questões linguísticas decretou esta a Década Internacional das Línguas Indígenas.

Depois de quatro anos de articulação, reuniões e mobilização, foi lançada, em agosto de 2020, a Articulação Brasileira de Indígenas Antropóloges (ABIA), com o objetivo de “construir uma antropologia desde as diversas ciências indígenas”.

Crédito: Academia Brasileira de Ciências (ABC)

Entre os entrevistados da população geral e uma minoria dos formadores de opinião não engajados, há uma percepção de que ao acessarem a educação superior e adquirirem bens materiais, os indígenas “mudam” e “deixam de ser índios”. Apenas entre uma minoria, há um entendimento de que os povos indígenas podem incorporar os códigos da sociedade brasileira e formar pontes, sem perder sua identidade.

Ainda que os estudantes indígenas enfrentem diversos desafios na universidade, a dificuldade financeira foi apresentada em entrevistas como a principal delas. E, nos últimos anos, tem diminuído o número de estudantes indígenas atendidos pelo Bolsa Permanência – auxílio financeiro oferecido pelo Ministério da Educação aos estudantes matriculados em instituições federais. Em uma audiência pública na Câmara dos Deputados em outubro de 2021 para discutir o assunto, o estudante Kâhu Pataxó afirmou que a restrição de acesso ao programa prejudica não apenas a continuidade dos cursos, mas o ingresso de novos alunos indígenas.

Regularização fundiária, tema dos mais urgentes do país há tempos

Ainda que o contexto político seja completamente desfavorável, os juristas destacaram que faltam estudos sobre a realidade indígena nos territórios e laudos antropológicos para processos de demarcação de territórios indígenas.

“Precisamos de estudos para priorizar, avançar com a regularização fundiária de territórios tradicionais, mover o que está parado, quando for possível. Esse é um dos temas mais urgentes do país há tempos."

"A Amazônia é um buraco negro, por isso não conseguimos proteger. Precisamos unificar as bases de dados fundiários, e já tivemos iniciativas importantes para isso no país."

“Faltam laudos antropológicos, a Funai não dá conta. Precisamos de parcerias com as universidades públicas para avançar nisso.”

Alguns doadores e ONGs internacionais também lembraram que há cada vez mais grupos e organizações trabalhando como o mapeamento de territórios indígenas ao redor do mundo, especialmente na América Latina, e em projetos pelo reconhecimento do direito territorial de povos indígenas.

“Acho que deveríamos investir mais no mapeamento dos territórios, que pode ser usado para respaldo legal aos direitos de posse de terra e em processos judiciais. Eles acabam sendo também um mapeamento cultural e o uso de tecnologia agrada aos jovens indígenas, sendo uma forma interessante de conectá-los à terra e à cultura."
(Doadora internacional)
“Ainda há um mapeamento muito desatualizado e incompleto dos territórios indígenas. Essa deveria ser uma área prioritária de trabalho."
(ONG internacional)
"As principais evidências científicas de que o Judiciário se vale são os relatos antropológicos, mas não temos todas as lutas bem mapeadas pelas comunidades. Além disso, hoje há uma imensa sobreposição entre terras indígenas e propriedade privada. É perigoso falar de regularização fundiária sem antes reconhecermos e endereçarmos esse grave problema."

Um levantamento do Ministério Público Federal (MPF), com dados de outubro de 2021, revela a existência de quase 10 mil propriedades rurais privadas sobrepostas a terras indígenas no país. 

Iniciativas pioneiras de autocartografia dos povos e comunidades tradicionais, como o projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) foram muito pouco citadas. 

Crédito: WWF International

“Esse foi um grande avanço da IPBES porque permitiu começar a desenhar um modelo intercultural. No mesmo quadradinho, você pode chamar de natureza, pode chamar de ecossistema, pode chamar de mãe-terra, pode chamar de Pachamama. Então, para avançar, precisamos dar esses passos de como a gente pensa primeiro, porque senão você não quebra aquela ideia de que a sua ciência ocidental é superior.”
(Cientista)
“Iniciativas como as da IPBES são bem difíceis de levar adiante, a gente não deve menosprezar o que eles conseguiram realizar em poucos anos. Os cientistas têm muita dificuldade em dialogar e aceitar resultados que vêm de outras áreas, e ecólogos e biólogos normalmente não têm compreensão do contexto social. Há tempos estamos precisando, mais e mais, do cruzamento e trocas entre áreas de conhecimento."
(Cientista)
“É um desafio muito grande para os ecólogos trabalhar com as populações tradicionais, porque têm todo um outro jeito de pensar, de falar, de lidar e um outro tempo, principalmente. E não necessariamente a gente tem grana para financiar isso. A construção de relações de confiança é compreensivelmente demorada. Mas, saber e considerar isso, e mais humildade por parte dos cientistas, ajudaria muito. Afinal, são conhecimentos complementares.”
(Cientista)

Em junho de 2021, cientistas do IPCC e da IPBES, em uma colaboração inédita, lançaram um relatório apontando que as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade estão intimamente interligadas e só serão solucionadas se forem abordadas de forma conjunta.

Assim como o reconhecimento do IPCC, a IPBES ainda é bastante desconhecida no Brasil, apesar de ter sido descrita por alguns dos cientistas ouvidos como uma das grandes novidades da última década.

Com base na revisão de cerca de 15 mil fontes científicas e governamentais, o relatório global da IPBES buscou incorporar, pela primeira vez nessa escala, conhecimentos indígenas e locais e desenvolver mecanismos para a integração do conhecimento indígena, tradicional e local no aperfeiçoamento da governança global da biodiversidade e dos chamados serviços ecossistêmicos. 

“Além de todo trabalho que o terceiro setor faz, do ponto de vista da academia, o que a IPBES está fazendo, construindo essa conversa da ciência com o conhecimento indígena, eu acho muito relevante, muito importante. É um processo lento, difícil, mas ele está acontecendo.”
(Cientista)
Crédito: IPCC

Mais recentemente, em setembro de 2021, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) aprovou em assembleia uma moção que pede a proteção de 80% da bacia amazônica até 2025, apresentada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), da qual a COIAB faz parte. A COICA participou pela primeira vez como membro titular do congresso, o que foi considerado um outro avanço em termos da incorporação de demandas dos povos indígenas em espaços conservacionistas. 

O braço brasileiro da IPBES, a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), lançou 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos em 2019, no qual detalha, por exemplo, a contribuição de povos indígenas e de comunidades tradicionais para a agrobiodiversidade e para o delineamento de paisagens no território brasileiro, trabalho com muito pouca repercussão no país. 

Legenda: Webinário: O sistema alimentar brasileiro e suas contradições atuais

Crédito: Ibirapitanga

Os povos indígenas na ciência política e em outros temas emergentes

Alguns representantes da sociedade civil disseram ser importante dar continuidade a estudos que expõem quem são os donos de terras agrícolas e os financiadores do mercado de terras no Brasil, as suas conexões políticas, assim como os subsídios dados ao agronegócio e a falta de transparência sobre o uso desses recursos no país. 

Não só porque a deputada Joênia Wapichana esteve entre as principais vozes da última década, assim como a sua posse entre as principais imagens e momentos-marco desse período, mas também porque houve um recorde de vereadores indígenas eleitos nas últimas eleições, achamos relevante incluir cientistas políticos entre os segmentos chave a serem ouvidos.

Tivemos, entretanto, muita dificuldade em acessar interessados em conceder entrevistas para a pesquisa e acabamos descobrindo que esse é um campo de estudo ainda a ser desenvolvido no país.

“Eu não vi na ciência política um debate importante sobre isso. Tenho uma colega fazendo mestrado, que está estudando partidos indígenas. As referências dela são da América Latina, de países asiáticos, de partidos étnicos nesses lugares que têm um formato de organização mais horizontal, considerando as suas próprias experiências de organização social. A produção dos Estados Unidos, que é a referência de ciência política hoje, vai falar de América Latina, de estudos na Bolívia, no Equador, na Venezuela e no Peru. Aqui no Brasil, você não tem referências, você não tem nada. Não tem nem o interesse. Então é isso pra mim, a visão da ciência política é essa. Não tem, não rola.”
(Cientista política)
“A questão ambiental é objeto, ainda, de uma enorme incompreensão dos cientistas políticos, porque por exemplo, a quantidade de gente que fala: ‘gostaria muito de ouvir a sua opinião política, mas agora, você virou um ambientalista’. Eu digo: ‘não, eu continuo fazendo análise política, apenas que a variável ambiental, sobretudo a mudança climática, passou a ser obrigatória’.”
(Cientista político)

Em outubro de 2021, a Associação Brasileira de Ciência Política lançou o projeto Ciência Política e Povos Indígenas, um repositório de textos acadêmicos sobre as relações entre a ciência política e povos indígenas, coordenado por Leonardo Barros, professor da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Crédito: Boletim Lua Nova – Revista de Cultura e Política, CEDEC

Restauração florestal, pagamento por serviços ambientais, regulamentação do mercado de carbono, índices ESG, relação clima-floresta-recursos hídricos, cadeias e financiadores globais de desmatamento, economia do bem viver e os bens comuns, resiliência e justiça climática, justiça de transição e reparação histórica e a abordagem transfronteiriça desses assuntos foram outros temas identificados como emergentes.

Os públicos não engajados sugeriram ser necessária a circulação de “informações de boa qualidade”. Dentre eles, o​s economistas foram os que mais demandaram estudos acadêmicos, relatórios de instituições e fontes mais variadas de informação. Os jornalistas da região Norte valorizaram a produção de universidades e institutos locais e lamentaram que não sejam divulgadas em todo o Brasil.

“A gente não consegue uma avaliação de impacto adequada, a gente não consegue discutir dilemas embasados e ter fóruns de discussão como no resto do mundo. Com base num projeto executivo bem feito e com muito detalhe, o poder público poderia enfrentar os temas regulatórios, qual impacto no meio ambiente, qual tipo de compensação, qual impacto sobre os povos, fazer audiências públicas, ouvir as visões e as divisões, discutir com a sociedade as alternativas.”
(Economista)

Ciência pra quê e pra quem?

Diversos entrevistados, em particular os interessados, mas não engajados, destacaram justamente a urgência e a escassez de propostas que ofereçam caminhos para o desenvolvimento do país, respostas práticas para a melhoria da vida da população que votou em Bolsonaro, para uma parcela da população não envolvida com a agenda ambiental, ou que hoje vive do desmatamento.

“Algo que mostrava que as coisas já estavam muito erradas era a situação da Transamazônica e os agricultores que vinham invadindo assentamentos, reservas extrativistas. Um lado do campesinato que aderiu ao mercado de terras e toras ilegais, um sintoma da abrangência desse banditismo na região e algo mais complicado do que o discurso de grandes empresas invadindo terras ilegalmente. Precisamos identificar e nos aproximar dessas pessoas.”
(Cientista)

Na reportagem “Sem Terra de Direita”, parte do especial “Amazônia Sob Bolsonaro”, Fabiano Maisonnave descreve a situação de Rondônia: “no lugar de movimentos sociais, principalmente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), contrários à invasão de terras indígenas, entraram associações desconhecidas e recém-criadas, assessoradas por advogados e escritórios de georreferenciamento, com envolvimento de fazendeiros da região”.

Crédito: TV Justiça

Um pequeno número de cientistas falou também sobre o temor e a existência de apagamento de dados e a importância de projetos para preservá-los.

"Há um desmonte geral. Muitos documentos, registros começaram a sumir.”

“Todo mundo lida com essas categorias, povos indígenas, comunidades tradicionais, mas sobra uma imensa legião. Mas quem é que depende mesmo do desmatamento? Quantos são? Estão onde? Você precisa ter políticas específicas para essas pessoas, fazer a disputa com o imaginário delas, hoje todo em cima da destruição. Porque, senão, você perde, né?”
(ONG nacional)
“Acho que tem um lugar que a gente evitou discutir há muito tempo, que é o lugar do carbono, e que é algo que precisa ser discutido com cuidado, o que significa falar de floresta, população, índices de carbono. A gente tem que fazer essas perguntas, sobretudo, analisar não só como funciona e o custo de funcionamento, mas também o que disso fica para as populações locais. Aquele projeto feito com os Suruí, que ainda gera problemas e discussões, levou dez anos ao menos para organizar aquilo, mas os aprendizados desses processos não são discutidos."
(ONG nacional)
“Temos que pensar e discutir, por exemplo, as implicações sociais do desmatamento zero. Os impactos sobre aquelas pessoas que não têm nem alternativa, que estão sempre fora das medidas econômicas e que nem sabemos quem são ali na Amazônia, muitas delas eleitores de Bolsonaro. São aquelas pessoas que agora são apropriadas pela direita como eram os camponeses no pré-guerra na Europa. A gente precisa reconhecer que o processo é complexo, que há um debate colocado com guerras de narrativas e que precisamos nos munir de mais informações e propostas e debatê-las mais e não evitá-las."
(ONG nacional)
“Acho que a grande dificuldade na narrativa durante muito tempo foi enxergar como associar o direito econômico ao direito social."
(Doadora nacional)
Legenda: Greenpeace entrega projeto por desmatamento zero na Câmara dos Deputados
Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Cobertura da grande imprensa