Públicos não engajados

Capítulo 14

Públicos não engajados

O componente da pesquisa com os públicos não engajados foi conduzido pelo Instituto Ipsos, uma das principais empresas de pesquisa e de inteligência de mercado do mundo.

Conforme detalhado em Apresentação e metodologia, foram feitas 100 entrevistas em profundidade, distribuídas entre população geral e formadores de opinião – economistas, lideranças políticas, líderes empresariais e jornalistas regionais. As entrevistas foram realizadas entre junho e outubro de 2021, e os dados foram sistematizados entre novembro de 2021 e janeiro de 2022. 

Esse levantamento buscou investigar a compreensão do termo “povos tradicionais” e a percepção sobre o lugar dos povos indígenas na sociedade brasileira no presente e no futuro, seus direitos constitucionais, sua atuação e suas demandas e representações políticas. Também pretendeu explorar caminhos para fortalecer o diálogo e aproximações junto a esses públicos específicos. 

Além disso, o projeto teve a intenção de identificar o grau de conhecimento sobre a relevância político-econômica da agenda climático-ambiental e o papel fundamental dos povos indígenas como parte da solução desses problemas. 

Economistas, lideranças empresariais, lideranças políticas e jornalistas regionais foram escolhidos como segmentos não engajados importantes por serem tomadores de decisão e formadores de opinião entre os mais influentes no país, ainda que, notadamente, atores desses setores tenham posições e atuação pública contrárias aos direitos dos povos indígenas. 

Devido ao atual contexto político, uma pequena amostra da população geral de perfil conservador, com posicionamentos no espectro político entre centro e direita, também foi incluída na pesquisa.

Abaixo, uma síntese dos principais achados da pesquisa da Ipsos. Clique aqui para acessar o relatório na íntegra. 

Crédito: Apib

Desconhecimento e generalizações, da empatia ao rancor

Como apontado em povos indígenas e comunidades tradicionais, ainda há um grande desconhecimento por parte dos públicos não engajados sobre a realidade e a diversidade dos povos indígenas e, consequentemente, sua organização social, seu histórico de lutas e resistências e o trabalho da sociedade civil e de estudos de cientistas sobre o assunto. 

Embora atualmente haja mais pontos de contato e informação, pouco se conhece até mesmo sobre as lideranças e os pensadores indígenas mais importantes do país. Ou seja, pode-se falar sobre a invisibilidade dos povos indígenas entre esses segmentos. 

A concepção sobre povos indígenas é formada a partir de fragmentos de informação: às vezes, apenas títulos de reportagens ou posts de redes sociais, com pouco aprofundamento. 

A exceção são os jornalistas regionais, que possuem uma perspectiva crítica e bem informada sobre os cenários nacional e local, e, durante as entrevistas, contribuíram com exemplos de associações e lideranças indígenas locais, pontuando com mais dados sobre o tema.

Quanto mais informados, mais conscientes são da diversidade e da complexidade do tema e mais interessados se demonstram em compreender melhor a realidade dos povos indígenas. Por outro lado, quanto menos informados, como no caso de uma grande parcela da população conservadora, menor é o interesse. O desconhecimento passa por suposto conhecimento, encerrando o debate – não se sabe o quanto não se sabe. Nesses casos, o caminho para se chegar a um diálogo parece ainda mais longo e complexo. 

Baseados numa visão de mundo fundamentada em sua própria cultura e na história oficial, tendem, muitas vezes, a projetar essas expectativas sobre os povos indígenas, isto é, esperar que eles “evoluam”, passando assim a integrar a sociedade brasileira. 

Ao falarem sobre os povos indígenas, os entrevistados destacaram impotência, constrangimento, distanciamento e incompreensão, compartilhando, eventualmente, manifestações de respeito, empatia e solidariedade e mencionando injustiça. Houve também, muito frequentemente, alguns que se mostraram indiferentes e outros que falaram sobre eles com rancor, um sentimento mais presente entre representantes da população geral. 

Crédito: Apib Comunicação
Crédito: Apib Comunicação
Crédito: Apib Comunicação
“É um sentimento talvez de incompreensão. A gente já entendeu tanta coisa, já absorveu tanta coisa, não deveria ser tão impositivo e agressivo ainda com os povos indígenas." 
(Economista)

Predominou a falta de reconhecimento da força de organização e representatividade dos povos indígenas na agenda pública brasileira, que foram mais associados a fragilidades e ameaças. Soma-se a isso uma visão histórica que desconhece a capacidade de resistência dos povos indígenas, suas conquistas e superações.

Existe ainda uma visão estática da cultura. Há dificuldade em compreender a cultura como algo vivo, que contempla mudanças e incorporação de elementos da sociedade envolvente. A visão da contribuição social dos povos indígenas tende a ser fixada no passado e na herança que legaram a língua, comida e hábitos dos brasileiros. 

Em geral, não se associa espontaneamente o impacto ambiental positivo dos territórios indígenas – ver mais sobre esse assunto abaixo. A diversidade cultural e os aprendizados diante da convivência com modos de viver e pensar também foram pouco mencionados como um valor em si.

Crédito: UOL

Foi apontado que a sociedade brasileira não se interessa nem se identifica com as populações indígenas por serem distantes geográfica e culturalmente: nesse sentido, há uma invisibilidade dessas populações, o que cria uma barreira adicional para o respeito às suas pautas.

É nesse contexto que vemos surgir uma visão de equação desequilibrada de “trocas” entre os povos indígenas e a sociedade do entorno, em que os povos indígenas demandam mais do que oferecem, e essas demandas são vistas como algo que prejudica os demais segmentos da população.

Também foi quase consenso que, sob o governo do atual presidente da República, os ataques de grileiros, garimpeiros e fazendeiros e a vulnerabilidade dos povos indígenas aumentaram ainda mais. Entre os formadores de opinião, muitos entrevistados acreditam que não apenas piorou a situação dos povos indígenas na última década, mas também aumentou o preconceito da sociedade. Perguntados sobre o interesse internacional pelos povos tradicionais no Brasil, a maioria não concordou – creditando tal interesse crescente no país a preocupações com o meio ambiente.

“Nos últimos dez anos, essa questão indígena deixou de ter um pouco de relevância, talvez até por conta dessa percepção de necessidade de crescimento, necessidade de sair de crise, crescer a qualquer custo, e ao agro, às commodities serem um pouco esse filão de crescimento. Às vezes, me passa a impressão que a sociedade olha o povo indígena como um estorvo, um povo atrasado, que precisaria de fato ser incorporado ao modo de vida ocidental. Para essa população, não faria sentido existir índio mais. Na hora que traz essa questão de inclusão, a sociedade tradicional brasileira exasperou, entrou num grau de negação, de não aceitação. A sociedade brasileira, no seu íntimo, tem essa coisa conservadora de raiz, muito intensa, muito forte e sempre foi de certa forma guardada implícita e, de repente, explodiu nos últimos anos, especialmente com o Bolsonaro. É como se o Bolsonaro fosse o sancionador. Essa desigualdade de renda que coloca essa população branca mais pobre abaixo de um nível de renda dos seus próprios pais, isso começa a deixá-las exasperadas também. Eu sou pobre, estou perdendo renda, esses governos estão dando privilégio para essas populações? Aí é demais!”
(Economista, Consultoria)