Campanhas de comunicação

Capítulo 9

Campanhas de comunicação

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A campanha mais lembrada e elogiada pelos públicos engajados/interessados foi “Menos Preconceito, Mais Índio”, do Instituto Socioambiental (ISA), de 2017. “O ISA fez um vídeo incrível, desfazendo o mito de que os povos indígenas não podem evoluir, não podem usufruir os benefícios da tecnologia. Ainda não houve esforço suficiente para dissipar a narrativa de que os povos indígenas são contra o desenvolvimento ou de que são menos autênticos se fazem uso de alguns dos nossos avanços tecnológicos."

A segunda campanha mais lembrada foi “Somos Todos Guarani Kaiowá”, desencadeada por uma carta de 170 indígenas, na qual pediam a morte coletiva dos Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay, após pedido para que desocupassem uma área ainda não demarcada em Mato Grosso do Sul. Além do acréscimo de Guarani-Kaiowá ao sobrenome de usuários do Facebook, posts e twitaços com as hashtags “#SomosTodosGuaraniKaiowá” e #SouGuaraniKaiowá, diversos atos públicos foram organizados em cidades brasileiras e fora do país e uma petição da Avaaz reuniu quase 350 mil assinaturas.

A terceira campanha mais citada foi a “É a Gota d’Água+10", que reuniu em uma única peça diversos artistas globais, como Juliana Paes e Marcos Palmeira, questionando a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. O abaixo-assinado pedindo a paralisação da obra reuniu mais de 2,5 milhões de assinaturas. A campanha não deteve a construção de Belo Monte, mas o movimento criado acabou se desdobrando na organização Uma Gota no Oceano, agora com 10 anos.

A participação de artistas e celebridades foi identificada como fundamental para maior visibilidade das campanhas junto ao grande público e como fator determinante para interromper a votação dos projetos de lei contrários ao meio ambiente e aos direitos de povos indígenas nos últimos anos. 

A linguagem de algumas peças de comunicação foi descrita por entrevistados, especialmente por artistas, como “excessivamente estetizadas” e “distantes da realidade dos povos indígenas”. Outras pessoas pontuaram que as campanhas precisam produzir brilho nos olhos e não sensação de culpa. “A maioria das pessoas se fecha pra isso.”

Foram compartilhadas ainda questões sobre o uso de termos pouco compreendidos pela sociedade em campanhas, como “marco temporal”, “demarcação de terras”, “grilagem”. Simplificá-los e debatê-los com a sociedade “seria um modo de ultrapassar as bolhas em que a gente vive”. Atualmente, “são campanhas que circulam nos mesmos lugares, grupos, pessoas. Não saem daquele clube. Uma das coisas que é urgente é que os movimentos, redes, observatórios, entrem em contato com outros movimentos. As campanhas precisam alcançar e pensar também nas áreas rurais, dialogar com as populações das periferias do país”.

Várias pessoas destacaram a importância de expandir a elaboração de campanhas para além do eixo Rio-São Paulo, pensando nas populações da “região amazônica” e de “outras regiões do país”.

“Demarcação Já!”, “Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais” e a campanha contra a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) também foram mencionadas por terem sido lideradas pelo movimento indígena ou por vitórias, ainda que temporárias.

Mesmo não ligada diretamente aos povos indígenas, a campanha da Rede Globo “Agro: A indústria-riqueza do Brasil” foi mencionada por entrevistados para pontuar a ausência de uma campanha que se iguale a essa em termos de meios, estrutura, grandiosidade, orçamento e duração. “A afirmação ‘O agro é pop’ pelas redes de televisão é violenta e não deveria existir, uma vez que TVs são concessões públicas.”

Diversas peças de campanhas e de comunicação foram testadas entre os públicos formadores de opinião não engajados e a população geral. As narrativas e o protagonismo dos próprios indígenas, especialmente das mulheres, foram bastante valorizados, assim como os cenários reais, que aumentam a credibilidade. No caso dos formadores de opinião, há interesse também por vozes que apresentem perspectivas complementares aos dos povos indígenas, como as de cientistas e de especialistas.

A apresentação da diversidade de culturas e saberes indígenas desperta respeito e interesse. As peças que desmistificam estereótipos e apresentam os povos indígenas em cenários e comportamentos atuais foram muito bem aceitas e consideradas esclarecedoras, elucidativas. O uso do humor é bem-vindo, mas o sarcasmo tende a ser rejeitado e considerado ofensivo. As propostas que evocavam a ideia de “nós contra eles”, “vilões e heróis” geram desconforto e despertam sentimentos de culpa, tristeza e impotência. 

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Para os públicos engajados/interessados, perguntamos se e de quais campanhas produzidas na última década se lembravam e consideravam que tinham sido as mais importantes. Os entrevistados de públicos não engajados foram convidados a assistir e comentar peças de campanhas já realizadas.

A campanha mais lembrada e elogiada pelos públicos engajados/interessados foi “Menos Preconceito, Mais Índio”, a primeira para tevê e cinema do Instituto Socioambiental (ISA), lançada em 2017.

“​​A primeira que vem à cabeça é aquela do ISA, toda narrada em Baniwa. É linda essa propaganda, foi super acertada! ‘A gente aqui, esse monte de gente primitiva, que vive pelado, não sei o quê’, e mostra os caras com celular, dirigindo carro. Eu queria que tivesse tido mais repercussão, porque foi exibida por um período curtinho e depois meio que evaporou.”
(Jornalista)
“Tem um abismo tão grande na sociedade em relação ao entendimento do que é ser indígena. Há uma enorme desvalorização e desrespeito a isso tudo ao longo da nossa história. Essa campanha, curtinha, é super efetiva porque vai em pontos-chave e faz as pessoas pensarem que, se a gente pode mudar, como eles não vão mudar? Por que eles vão deixar de ser índios?”
(ONG nacional)
“Teve uma que acho que foi o ISA que produziu, que era um grupo de indígenas vestindo roupas, usando celulares, contrastando aquela imagem que temos deles, daquela cultura congelada no tempo, uma cultura não dinâmica. Os jovens, as pessoas ali, confrontando essa visão e mostrando que ser índio não significa apenas estar na aldeia isolada do mundo, mas que eles podem se apropriar de tudo que a cultura não indígena oferece e, ainda assim, serem índios. Acho que essa foi a campanha mais marcante.”
(Empreendedor)
“O ISA fez um vídeo incrível, desfazendo o mito de que os povos indígenas não podem evoluir, não podem usufruir os benefícios da tecnologia. Ainda não houve esforço suficiente para dissipar a narrativa de que os povos indígenas são contra o desenvolvimento ou de que são menos autênticos se fazem uso de alguns dos nossos avanços tecnológicos."
(Cineasta)
“Aquela campanha do ISA que foi feita lá no Rio Negro, que tem só dois minutinhos, é fantástica. Porque o que acontece é bem aquilo mesmo. Acho essa campanha bárbara, porque toca em uma questão primordial, a ignorância e o desconhecimento das pessoas.”
(Cientista)
Crédito: Itaú Cultural

Em 2013, diante da repercussão do caso, a Funai publicou um relatório que identificou e delimitou a Terra Indígena Iguatemipeguá I, onde viviam os Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay. Também em 2013, o Facebook passou a impedir que os usuários mudassem seu sobrenome para Guarani-Kaiowá. 

O levantamento da DAPP/FGV sobre as redes sociais identificou que, entre 2015 e 2018, houve uma intensificação de campanhas digitais em torno do povo Guarani-Kaiowá. Em todo o período, foram coletados mais de 17 mil posts, que somaram mais de 1,5 milhão de interações. O tema obteve maior destaque no segundo semestre de 2015, com publicações do então deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e de organizações como Cimi, Greenpeace, Mídia Ninja e Anistia Internacional

Em 2016, foi finalizado “Martírio”, documentário de Vincent Carelli que retrata a luta dos Guarani-Kaiowá pela reconquista de seus territórios e que recebeu, entre outros, o prêmio de melhor filme pelo júri popular e o prêmio especial do júri oficial no Festival de Brasília, o prêmio de melhor documentário na 40ª Mostra de Cinema de São Paulo e o prêmio de melhor filme latino-americano no Festival de Mar Del Plata – mais em Arte, cultura e entretenimento.

Em entrevista à revista Trip em 2017, Vincent Carelli, em resposta à pergunta sobre o fato de muita gente não ter entendido o significado daqueles sobrenomes no Facebook e sobre a falta de informação sobre a situação indígena no Brasil, afirma: “Sem dúvida, porque a mídia hegemônica não fala de índio, virou um tema tabu. É algo que circula nas redes sociais, ou melhor, circula na minha rede social, porque fica restrito a uma bolha. Tudo isso me motivou a fazer Martírio: a necessidade de esclarecer esse drama. Aqui não é a Síria, não é possível esses homicídios à bala em pleno século 21!”

Já em 2021, a Aty Guasu, junto com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Rede de Apoio e Incentivo Socioambiental (Rais), lançou o documentário “Tempo de Guavira”, no qual mais de 40 depoimentos indígenas compõem as narrativas de recuperação dos seus tekoha (“o lugar onde somos o que somos”) em Mato Grosso do Sul. Entre novembro e dezembro de 2018, durante o tempo de amadurecimento da guavira, fruta tradicional para os Kaiowá e Guarani, uma equipe de pesquisadores indígenas e não indígenas realizou trabalho de campo e registros audiovisuais em 46 dessas terras, em particular as que ainda não foram demarcadas.

Crédito: Uma Gota no Oceano

O abaixo-assinado da campanha, pedindo a paralisação da obra, reuniu mais de 2,5 milhões de assinaturas e foi entregue aos ex-ministros Gilberto Carvalho (Casa Civil), Izabella Teixeira (Meio Ambiente) e Edison Lobão (Minas e Energia), em dezembro de 2011.

A campanha foi lembrada pelo peso e engajamento dos artistas envolvidos, pela novidade que isso representava na época, pela mobilização nacional e internacional e pelo debate que gerou sobre a usina hidrelétrica na grande imprensa.

“Belo Monte contou com várias campanhas de comunicação. Teve aquela Gota D’Água, que foi super relevante, realmente um marco no engajamento de atores e atrizes brasileiros, de peso, globais.”
(Jornalista)
“Tem um momento muito marcante que é aquele famoso vídeo dos artistas sobre Belo Monte. O vídeo do Gota D’Água. Eu já trabalhava com comunicação, trabalhava diretamente nesse tema, e foi a primeira vez que vi um tema ambiental virar assunto de mesa de bar. As pessoas realmente discutiam isso. E todos com opiniões apaixonadas e erradas, mas, enfim, todo mundo com o tema na boca.”
(Assessora de Comunicação)
“Belo Monte é um momento de ruptura muito grande. E teve a participação de todos aqueles atores, Letícia Sabatella, coisa que em outros tempos não teria ido tão longe como foi naquele momento.”
(Editor)
“A campanha de Belo Monte foi importante, mas eu diria que hoje darmos espaço e valorizarmos os artistas indígenas é ainda mais importante.”
(Cineasta)

A campanha não deteve a construção de Belo Monte, mas a campanha criada pelo ator Sérgio Marone e pela jornalista Maria Paula Fernandes acabou se desdobrando na organização Uma Gota no Oceano, que apoia movimentos sociais na elaboração de estratégias de comunicação para ampliar a empatia e solidariedade ativa da sociedade brasileira com causas socioambientais e que, em 2021, completou 10 anos de existência.

A movimentação contrária à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte foi observada na análise da DAPP/FGV sobre as redes sociais. O perfil da Uma Gota no Oceano ganhou destaque nos anos de 2014 e 2015, com atividade muito expressiva no Instagram. 

A resistência e oposição à usina hidrelétrica continuam vivas, como detalhado em Eventos e momentos-marco.

Crédito: Uma Gota no Oceano

Tapajós Livre!, causas e celebridades

A campanha contra as usinas hidrelétricas no Tapajós do Greenpeace Brasil também foi citada por entrevistados engajados/interessados. 

A campanha, que reuniu mais de 1,2 milhão de assinaturas contra a construção das hidrelétricas, contou com a organização de diversos protestos, arte urbana e adesão de artistas e celebridades nacionais e internacionais. Além disso, pesquisadores elaboraram uma análise do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da hidrelétrica, mostrando a inviabilidade do empreendimento. 

O levantamento da DAPP/FGV sobre as redes sociais identificou a luta dos Munduruku contra a construção do Complexo Hidrelétrico do Tapajós como um dos destaques do período de 2011 a 2014. 

Crédito: Alessandro Molon

“O 342 tem feito um trabalho perceptível, sem dúvida alguma. Acho que tem uma coisa meio de ficar jogando para tudo que é lado, com muita coisa pipocando, mas, às vezes, falta um pouco de fôlego de levar até a próxima casa, de sustentar as coisas. Tudo é emergência, tudo é muito rápido, tudo precisa fazer, assinar, postar. Então, acho que tem um papel importante, mas falta que seja um pouco mais estratégico. Teria um ganho enorme, porque acho que é um trabalho sério e importante.”
(Doador nacional)
“Acho que falta maior engajamento no meio artístico. Não existe tanto comprometimento e falta representatividade de pessoas que falem a partir de uma vivência com comunidades tradicionais.”
(Cientista)
“O problema é como os artistas podem tratar uma questão ligada a direitos humanos, uma coisa muito séria, sem deixá-la superficial. ​Alguns influenciadores têm dificuldade de ir além daquilo que cabe num tweet. Mudam de um assunto pra outro muito rapidamente. Acho que, se fica superficial, não comunica o tamanho do drama, não ajuda as pessoas a entenderem o que está por trás, não politiza, mas talvez eu esteja sendo idealista e purista demais. O que a Petra Costa fez com a Sônia Guajajara, de abrir caminho para acessar pessoas, acho muito interessante. Ou o que o Sting fez com o Raoni. A figura do influencer que não tem coerência no rolê, eu acho superficial.”
(Ativista)
“Eles fazem muito barulho, mas não apresentam solução. Isso chama a atenção e mantém o tema em discussão, mas precisamos de propostas. Os índios garimpeiros também são muito fortes nas redes.”
(Jornalista)

A pesquisa "Juventude e Democracia na América Latina", encomendada pela Luminate, lançada no início de 2022, aponta que os jovens brasileiros entre 16 e 24 anos estão moldando as suas posições políticas por meio de influenciadores que seguem no TikTok, Instagram, YouTube e Twitter.

Crédito: Instituto Socioambiental (ISA)

Crédito: Instituto Socioambiental (ISA)
“Eu amo o ISA, mas não gosto das campanhas, parece que elas não têm nada a ver com o que eles fazem. Há aquela falsa premissa de que, para atingir mais gente, precisamos de uma linguagem publicitária, tratamento de imagem, cortes rápidos etc. A gente pretende desconstruir o estereótipo do indígena com uma linguagem estereotipada norte-americana. Todo mundo faz peças de campanhas com a mesma linguagem, independentemente do tema; Yanomami, Belo Monte, minhocas, mulheres engravidando aos 39 anos, Wall Street. O conteúdo pode ser importante, mas, se você me diz do mesmo jeito, qual a mudança possível?”
(Artista)

A linguagem estética predominante em peças de comunicação, não apenas de campanhas do ISA, foi descrita por alguns dos entrevistados como “excessivamente estetizadas”, “alheias” e “distantes do Brasil e da realidade dos povos indígenas”.

Legenda: Fatos Florestais: Grilagem de terras
Crédito: Observatório do Clima

“Às vezes, somos muito preciosistas, querendo passar a informação completa, achando que falta alguma coisa. Fica muito chato e pouco claro.”
(Cineasta)
“Tem que ter lugar de enfrentamento, mas também disputar o público, e falar de coisas básicas, para mais gente.”
(Jornalista)

Brasil além de SP, Amazônias, Demarcação Já! 

Várias pessoas destacaram a importância de expandir a elaboração de campanhas e projetos de comunicação para além do eixo Rio-São Paulo, pensando esses temas para as populações na “região amazônica”, “nas cidades amazônicas”, “nas áreas de fronteira”, no “interior”, em “outras regiões do país”. 

No artigo “Por que as marcas ainda têm medo do Brasil?”, Cristiane Scaff, da Inesplorato, afirma: “na ânsia de falar com todos os brasileiros, é muito comum que comunicações sejam elaboradas a partir do que chamamos de ‘paulistite’, a visão míope que limita o Brasil pelo viés cosmopolita de São Paulo. (...) Esse descompasso com o contexto nacional não só provoca a desconexão dos brasileiros com muitas marcas, como também é um sintoma de um problema muito maior: o nosso alheamento em relação ao país. (...) Ao longo dos anos, sentimos que o olhar colonizado ainda prevalece nas empresas: o repertório publicitário ainda é muito alimentado pelos Estados Unidos e Europa; os códigos para a construção do que é aspiracional ainda transpiram estrangeirismos; até mesmo as ditas ‘tendências de comportamento’ usam e abusam do inglês. O país tem muito a oferecer, mas é preciso descolonizar o olhar”.

“A Amazônia é muito complexa. Nos últimos anos, começamos a adquirir um orgulho maior das nossas origens e tradições. Antes só achávamos bom o que vinha de fora e ainda tem muito disso. O audiovisual tem uma participação importante nisso. A comida do Pará, por exemplo, era vista pela elite paraense como algo exótico, para comer de vez em quando. Em dia de festa, se comia estrogonofe. Quem comia maniçoba ou tucupi, era o povo na rua.”
(Cineasta)

Crédito: Greenpeace

Covid-19, muitas (ou nenhuma) campanhas, pouca retenção

Menos citadas e mais específicas, as campanhas de arrecadação de recursos durante a pandemia e de vacinação contra Covid-19 foram muito positivamente lembradas, especialmente por indígenas.

“A comunicação fez toda a diferença e salvou vidas. A comunicação envolveu pessoas e entidades parceiras para pensarmos em ações, vaquinhas, em prol dessas vidas. Nós vimos como a comunicação forte, bem feita, envolve as pessoas, que colaboram por meio do financiamento coletivo. Pudemos viabilizar muitas coisas: cestas básicas, higiene, máscaras. Traçamos estratégias e mapeamos as comunidades mais vulneráveis. Um processo desafiador, mas ao mesmo tempo prazeroso, porque surte efeitos.”
(Comunicadora indígena)
“Tiveram muitas vaquinhas na pandemia de grupos indígenas que não dialogavam muito com a sociedade e na pandemia passaram a dialogar mais. A campanha da emergência indígena foi forte.”
(Doador nacional)
“‘Emergência Maracá’ não foi exatamente uma campanha, foi um plano de enfrentamento à Covid-19. Para dar visibilidade ao plano, fizemos a live Maracá. Como ficou muito boa, transformamos a ideia em uma websérie. Com a Maracá, nós avançamos muito na arrecadação de recursos.”
(Liderança indígena)

A websérie “Maracá – Emergência Indígena” foi dirigida por Bia Lessa, pela coordenadora da Apib Sônia Guajajara, pela liderança Célia Xakriabá, pela cantora e compositora Maria Gadú, pela Marielle Ramires, uma das coordenadoras da Mídia Ninja, pela artista plástica Laura Lima, pelo designer Pedro Inoue e pela coordenadora do 342 Amazônia Mari Stockler. Contou com enorme adesão da classe artística e de personalidades, como Ai WeiWei, Dráuzio Varella, Criolo, Milton Nascimento, Thomas Lovejoy (​​falecido em 2021), Chico Buarque, Alec Baldwin, Maria Bethânia, Sebastião Salgado, Zé Celso, Gaby Amarantos e muitos outros.

Crédito: Apib
Crédito: Apib
Crédito: Apib

Houve entrevistados que questionaram se já tivemos realmente uma campanha em defesa dos direitos dos povos indígenas no país e se o que tem sido feito pode ser chamado de campanha.

“Quando escuto a palavra campanhas, penso naquilo que mobiliza o público, a sociedade, a opinião pública, uma iniciativa com público-alvo, um conjunto de ações, atividades desencadeadas e com objetivos, demandas específicas. Outra coisa são as mobilizações, agitações que se dão via redes sociais, ou as ações de incidência política, que vejo mais como instrumentos da campanha do que necessariamente como campanha. Acho que esse tema no Brasil demandaria uma campanha muito bem estruturada, com o fôlego, a duração e a persistência que tivemos contra a fome, por exemplo.”
(Doador nacional)
“Acho que precisamos e ainda não tivemos uma campanha grande, que inclua peças em canais de TV aberta, que convide a sociedade a participar, e que a gente consiga sustentar por um longo tempo.”
(Antropólogo)
“Só lembro do ‘agro é pop’, que me incomoda, mas é o que eu lembro.”
(Cineasta)
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“O agro é tech, agro é pop, agro é tudo

“Agro: A indústria-riqueza do Brasil” foi mencionada por entrevistados de públicos engajados/interessados para pontuar a ausência de uma campanha que possa se igualar a essa em termos de meios, estrutura, grandiosidade, orçamento e duração, e para discorrer sobre as dificuldades – impossibilidade, para alguns – de compor imaginários distintos aos da exaltação ao agronegócio no Brasil.

“Acho muito difícil, mas precisamos disputar, desconstruir essa coisa do agro é pop, que o agro alimenta. Temos que mostrar o que o agronegócio realmente é em termos de degradação, em termos de concentração de renda, e que os indígenas, comunidades tradicionais, pequenos produtores aproveitam muito melhor a terra.”
(Cientista)
“O agro é pop, o agro é bom, ainda está muito ligado à questão da empregabilidade, da viabilidade econômica no país, mesmo entre pessoas interessadas na causa indígena.”
(Jornalista)
“Tem gente trabalhando contra o tempo inteiro. O agro é pop, entendeu? E é mentiroso. Eles botam uma propaganda, no meio do Jornal Nacional: ‘O feijão que você come vem do agro’. Vem nada! Vem da agricultura familiar. E não falam sobre a monocultura, sobre o desmatamento, sobre a soja produzida para vaca comer lá fora. É um absurdo.”
(Antropóloga)
“A afirmação ‘O agro é pop’ pelas redes de televisão é violenta e não deveria existir, uma vez que TVs são concessões públicas. Isso que é praticado no Brasil é uma política de extermínio.”
(Jornalista)

A campanha começou a ser veiculada em 2016 para “conectar o consumidor com o produtor rural e ao mesmo tempo desmistificar a produção agrícola aos olhos da sociedade urbana”.

“Sempre abordamos o agronegócio como conteúdo, basicamente mostrando para a população assuntos importantes ligados ao mercado. Então decidimos extrapolar as barreiras do jornalismo e do entretenimento, desenvolvendo um projeto de comunicação para os intervalos da emissora. E tínhamos três objetivos básicos: desmistificar o tema, tirando da cabeça das pessoas a imagem de que o agronegócio era pequeno, relacionado ao homem simples, sertanejo; valorizar o setor, que representa 1/3 do PIB brasileiro; e, por último, aproximar o agronegócio das pessoas, mostrando que existe um mundo chamado agronegócio e que ele está presente no nosso dia a dia”, explicou José Luiz Petroski, gerente de planejamento de marketing da Rede Globo, durante apresentação sobre a campanha em 2020.

A campanha é recorrentemente tema de memes, charges, críticas nas redes sociais.

Em 2018, foi também tema de uma exposição do artista indígena Denilson Baniwa “Terra Brasilis: o Agro não é pop!”. Em entrevista sobre a exposição, Denilson afirmou que “a política do agronegócio com o apoio da grande mídia e de grupos conservadores tem difundido a ideologia do desenvolvimento econômico ao mesmo tempo que fomenta um discurso de ódio e preconceito contra as populações indígenas como justificativa ao impeditivo do progresso do país”.

Crédito: Reprodução Twitter

Em 2021, um estudo da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra),“O Agro não é tech, o Agro não é pop e muito menos tudo” se contrapõe à narrativa da campanha. 

A partir da análise de dados da balança comercial, do PIB e do IBGE, a pesquisa aponta que o agro pouco contribui com o produto interno bruto (PIB), traz altos custos ao Estado, gera poucos empregos e é o grande responsável por devastações ambientais: “o agro não é e não produz ‘a riqueza do Brasil’ (segundo os dados do PIB-IBGE), mas recebe a maior parte de recursos públicos em créditos, incentivos, isenções tributárias, perdões de dívidas etc. O grande lucro fica com empresas de capital estrangeiro como Bunge e Cargill. Não é grande gerador de trabalho e renda e depende de pacotes tecnológicos importados de fora. Do ponto de vista ambiental, é o principal responsável pela devastação florestal e envenenamento dos solos, águas, homens, mulheres e crianças. O agro não alimenta o mundo porque não alimenta nem os brasileiros, como pode ser visto pela ótica da inflação dos preços alimentares e aumento da fome no Brasil. Onde estão os lucros do agro? Qual a força da evasão de divisas? Qual é a fatia do agro na formação da dívida pública? A soja é mesmo brasileira, já que as multinacionais estrangeiras são as grandes comercializadoras? É preciso desmontar os mitos que vendem o agro como motor do país e como fonte de alimento para o mundo. A captura ideológica permeia todas as esferas da indústria cultural e é preciso urgentemente fazer frente a isso”.

A campanha está na terceira temporada e, de acordo com reportagem do UOL, conta atualmente com o patrocínio do banco Bradesco e da montadora Ford. 

O alcance dessas campanhas para além das bolhas foi uma preocupação compartilhada recorrentemente.

“Nós estamos vivendo em uma sociedade em que não há um entrechoque que altere a visão de mundo do antagonista, as pessoas de uma certa tendência tendem a falar apenas consigo mesmas.”
(Jornalista)
“O problema dessas campanhas é que elas são feitas, vistas e compartilhadas somente dentro da nossa bolha. São peças de comunicação que falam com a nossa bolha. Elas fortalecem posições existentes, mas não mudam a posição ou formam a opinião do restante da população. Furar a bolha requer falar de outro jeito, jeitos que a gente não gosta, jeitos que a gente não sabe.”
(Ambientalista)

Outros acreditam que a visibilidade internacional dessa agenda precisa ser melhor “oportunizada”, aproveitada, no Brasil.

“Tem que ter lugar de enfrentamento, mas também tem que falar daquilo que chama a atenção do público. A classe média brasileira olha muito para os Estados Unidos. O Joe Biden está falando da Amazônia, está ouvindo os povos indígenas. A Europa está falando sobre interromper a importação de produtos agrícolas com indicadores socioambientais. Por que a gente não pega esse gancho, não faz melhor uso disso?”
(Cineasta)
Crédito: Observatório do Clima
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Bolsonaro ou Amazônia?

“Defund Bolsonaro” não foi uma das campanhas mais citadas, mas foi a que gerou as reações mais exaltadas entre alguns dos entrevistados. 

O site da campanha não está mais no ar. De acordo com uma reportagem do Valor Econômico, a campanha buscava “alertar e conscientizar empresas, investidores, consumidores e líderes globais para que se distanciem do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de forma a evitar a destruição da Amazônia”.

A iniciativa reuniu as principais entidades de defesa do meio ambiente no país, como Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Mídia Índia, 342 Amazônia e Observatório do Clima. Seu lançamento coincidiu com um contexto de intensificação das queimadas na Amazônia Legal e no Pantanal, agravadas pela suspensão, pelo Ministério do Meio Ambiente, das operações de combate ao desmatamento nas regiões – a medida incluiu um bloqueio de R$ 60 milhões para fiscalização.

Lançada em setembro de 2020, a principal peça da campanha, um filme com pouco mais de 1 minuto, inovou a narrativa imagética sobre a Amazônia ao apresentar cidades e produtos internacionais em chamas para relacionar corporações e marcas globais com as queimadas na floresta e com o governo Bolsonaro. O filme terminava com as questões: “pergunte a si mesmo, pergunte às marcas, ao seu governo, de que lado estão, Bolsonaro ou Amazônia?”

A campanha viralizou nas redes sociais, recebeu atenção da imprensa nacional, especialmente depois da adesão do ator e filantropo Leonardo DiCaprio, e gerou críticas de integrantes do governo. 

Crédito: Gilberto Gil

MAIS VOZES FEMININAS, MAIS DADOS, MAIS SABERES INDÍGENAS

Diversas peças de campanhas e de comunicação foram testadas entre os públicos formadores de opinião não engajados e a população geral.

As narrativas e o protagonismo dos próprios indígenas, especialmente das mulheres, foram bastante valorizados, assim como os cenários reais, que aumentam a credibilidade. No caso dos formadores de opinião, houve interesse também por vozes com perspectivas complementares aos dos povos indígenas, como as de cientistas e de especialistas. Entre o público geral, foram apreciadas as composições visuais bem trabalhadas, acompanhando as narrativas mais emotivas e mostrando a natureza e as tradições indígenas. 

A apresentação da diversidade de culturas e saberes indígenas despertaram respeito e interesse. Também foram elogiadas as campanhas que explicam a relação dos povos indígenas com a biodiversidade e como isso é compreendido pelos não indígenas e contribui para mitigar a crise climática.

As peças que desmistificam estereótipos e apresentam os povos indígenas em cenários e comportamentos atuais foram muito bem aceitas e consideradas esclarecedoras, elucidativas, ainda que o uso de vestuário com elementos da cultura pop tenha causado estranhamento entre entrevistados da população geral.

Crédito: Reprodução Instagram

Dados e evidências foram considerados essenciais para aumentar a credibilidade, informações além dos filmes, e foi sugerido que as assinaturas das peças incluam QR Codes ou o www para quem quiser saber mais.

O uso do humor foi bem-vindo, ainda mais pelo público jovem, e uma narrativa considerada autêntica, original. Nesse caso, há necessidade da mensagem final ser bem amarrada, para não ficar dependendo da capacidade de interpretação do espectador. O sarcasmo tende a ser rejeitado e questionado, e considerado ofensivo.  

As propostas que evocavam a ideia de “nós contra eles”, “vilões e heróis” geraram desconforto e foram lidas como posicionamentos ideológicos, que não favorecem a aproximação e interesse no debate. Elas despertaram sentimentos de culpa, tristeza e impotência. O uso do termo genocida provocou ruído e incomodou uma parcela dos entrevistados, e a campanha foi definida como “de esquerda”. 

Generalizações que colocam “todos os indígenas na mesma caixinha” foram criticadas, e uma das peças foi descrita como um trabalho que fala apenas a pessoas já simpáticas à causa.

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