Arte, cultura e entretenimento

Capítulo 12

Arte, cultura e entretenimento

pra você que tá sem tempo...

Os indígenas e os públicos engajados/interessados foram convidados a falar sobre as principais contribuições da arte e da cultura para o fortalecimento das narrativas dos povos indígenas e sobre os povos indígenas no Brasil.

"A arte indígena, os múltiplos cinemas e a literatura indígena foram identificados como “marcas muito fortes", “que mudaram a cena cultural do país nesta última década".

As expressões artísticas dos povos indígenas foram descritas como “um universo vasto, complexo, antiquíssimo de produção de sentido” e como um “poderoso antídoto contra as muitas crises que estamos vivendo, incluindo a crise de imaginação”.

Ailton Krenak foi um dos nomes mais citados como um dos principais pensadores e intelectuais do país. Um dos seus livros, “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, já vendeu mais de 120 mil exemplares e foi traduzido em nove idiomas além do português — inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, holandês, norueguês, turco e tcheco. “O Ailton Krenak é uma figura muito forte e dialoga desmontando a nossa linguagem. Dominaram a nossa linguagem e agora destroem o nosso discurso a partir da nossa linguagem.” “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, também foi muito lembrado. “‘A Queda do Céu’ é o maior dos marcos. Davi toma o lugar do antropólogo.Você entra no mundo da cosmologia Yanomami, no lugar deles no mundo, mas também no lugar dos brancos no mundo (...). Às vezes, pensamos em narrativas dos povos originários como algo do passado, mas o livro contém uma força dramática extremamente contemporânea.”

Alguns entrevistados descreveram a atuação dos escritores como fundamentais para a difusão das culturas indígenas para a sociedade brasileira. Daniel Munduruku, Kaká Werá, Olívio Jekupé e Eliane Potiguara foram descritos como nomes precursores da literatura indígena textual, fenômeno que foi situado nos anos 1990 e apontado como um outro fenômeno decorrente da Constituição de 1988. Daniel Munduruku, autor de mais de 50 livros, foi identificado como um nome comprometido em “puxar muitos outros”. O autor teve três obras selecionadas entre as finalistas do Prêmio Jabuti em 2021 e foi um dos candidatos a ocupar a Academia Brasileira de Letras (ABL).

A contribuição do antropólogo, indigenista e documentarista franco-brasileiro Vincent Carelli, enquanto precursor da formação de cineastas indígenas no Brasil, foi destacada por entrevistados indígenas e não indígenas. Em 1987, Vincent Carelli criou a organização não governamental Vídeo nas Aldeias. A instituição, que comemorou 35 anos em 2021, conta com um acervo único, precioso e histórico de imagens sobre os povos indígenas no Brasil.

A existência não de um cinema indígena, mas de “vários cinemas indígenas”, foi apontada por públicos engajados, especialmente antropólogos, artistas indígenas e curadores, uma vez que o audiovisual feito por indígenas retrata suas vidas, sendo elas, portanto, diferentes entre as etnias que se expressam. O cinema feito por indígenas foi mencionado ainda como importante ferramenta política para a reivindicação de direitos e para o registro de suas ancestralidades, territórios e oralidades, e como uma novidade às linguagens adotadas pelo documentário brasileiro. Alguns entrevistados destacaram o interesse do público por filmes indígenas, usando como exemplos obras que estão circulando amplamente na internet, como “As Hiper Mulheres”, de Carlos Fausto, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette; e “A Casa dos Espíritos”, de Morzaniel Yanomami, ambos com mais de um milhão de visualizações no YouTube.

Filmes dirigidos por não indígenas, como “Piripkura” e, mais recentemente, “A Febre” e “A Última Floresta”, foram lembrados como “muito sensíveis” na maneira em retratar o universo indígena para públicos mais amplos. Programas de TV, séries e entretenimento, como “Falas da Terra” e “Aruanas”, foram descritos como “muito necessários”, “essenciais para comunicar fora da bolha” e “falar para as massas”. “Precisamos privilegiar o entretenimento. As pessoas querem se divertir, não só aprender, e podem aprender muito achando que estão apenas se divertindo.”

A emergência da arte indígena contemporânea foi destacada não apenas pela imensa criatividade, beleza e sofisticação, mas também por desafiar as narrativas e as linguagens hegemônicas; por questionar e evidenciar apagamentos históricos a partir da perspectiva indígena; e por tensionar e ampliar o próprio conceito de arte, com práticas fundamentadas na coletividade, na ancestralidade e nas cosmovisões indígenas. Artistas como Jaider Esbell (falecido em 2021) e Denilson Baniwa foram bastante citados, assim como “Véxoa: Nós sabemos”, primeira exposição de arte indígena da Pinacoteca de São Paulo, com curadoria da pesquisadora e artista educadora Naine Terena.

A cena musical indígena apareceu pontualmente entre as respostas, embora venha ganhando as redes e os palcos nos últimos anos. Entre os principais nomes emergentes mencionados estiveram o dos Brô MCs, primeiro grupo de rap indígena do Brasil, que estará nos palcos do Rock in Rio em 2022; e o de Kaê Guajajara, que lançou seu primeiro álbum, “Kwarahy Tazyr”, em 2021. Em 2022, deve ser lançado “O Futuro é o Ancestral”, projeto sociocultural e cinematográfico de registro de processos de criação musical entre indígenas e o DJ Alok.

O teatro e a fotografia foram ainda menos citados que a música, e os dois artistas mais lembrados foram Juão Nyn, que no espetáculo “Tybyra” conecta o universo indígena a temas LGBTQIA+; e Uýra, artista indígena contemporânea, bióloga e educadora, que se define como “a árvore que anda”. No final de 2021, foi lançada a plataforma digital do TePI – Teatro e os povos indígenas, que traz a importância do protagonismo artístico indígena em sua expressão e representatividade, e entende o teatro em sua diversidade de formas e valoriza o corpo como potência estética e política.

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“A cultura brasileira, de maneira geral, nunca se aproximou das tradições ameríndias. A cultura brasileira é uma cultura eurocêntrica. As pessoas não sabem dizer o nome de cinco línguas indígenas no Brasil, não sabem localizar cinco povos indígenas, quanto mais refletir ou elencar ou falar sobre quaisquer elementos pertencentes a povos indígenas que façam parte do seu repertório intelectual, criativo e cultural. O que fez parte da sua formação, você, crítico literário, você, artista plástico, você, cineasta, você, filósofo, o que te influenciou, na sua formação? Pra não dizer, você, político, você, advogado, o que você traz e carrega do repertório milenar ameríndio?”
(Curador)

Os indígenas e os públicos engajados/interessados foram convidados a falar sobre as principais contribuições da arte e da cultura para o fortalecimento das narrativas dos povos indígenas e sobre os povos indígenas no Brasil.

A arte indígena, os múltiplos cinemas e a literatura indígena foram algumas das expressões artísticas identificadas como “marcas muito fortes”, “que mudaram a cena cultural do país nesta última década”, ainda que alguns entrevistados tenham questionado essa divisão entre a vida e a arte, sem muito sentido para os indígenas.

A emergência da arte indígena contemporânea foi destacada não apenas pela imensa criatividade, beleza e sofisticação, mas também por desafiar as narrativas e as linguagens hegemônicas; por questionar, criticar, recontar e evidenciar apagamentos históricos a partir da perspectiva indígena; e por tensionar e ampliar o próprio conceito de arte, com práticas fundamentadas na coletividade, na ancestralidade e nas cosmovisões indígenas.

“A arte tem essa capacidade de transgredir a objetivação das coisas. Mas, até pouco tempo, eram os brancos que falavam do nosso conhecimento, que estavam à frente do imaginário sobre os povos indígenas.”
(Antropólogo indígena)
“Isso que os artistas indígenas vêm fazendo é urgente, é bonito. Essas pessoas produzem beleza e produzem sentido, e a gente vive num momento tão carente disso tudo.”
(Curadora)
“Os artistas fazem circular a cultura de seus povos e também produzem cultura, ao mesmo tempo em que questionam os aparatos e a falta de valorização sobre os universos indígenas.”
(Cineasta)
“Há um movimento da arte, da literatura e do audiovisual indígena que vai sendo feito mesmo sem apoio. São movimentos que vêm se desenvolvendo recentemente e que se complementam. O levante desses movimentos são marcas muito fortes desses últimos anos e isso muda a cena do país. Eles vão certamente marcar a história.”
(Artista indígena)
“Tem uma emergência de interesse para além dos especialistas, para além dos antropólogos e da militância indígena. Acho que tem um momento novo, de despertar, de interesse pela contribuição gigantesca da arte.”
(Editor)
“Acho que o Davi (Kopenawa), o Ailton (Krenak), os artistas indígenas, enfim, estão permitindo um novo tipo de aliança com o mundo não indígena, uma aliança crítica, muito poderosa e que fala muito sobre a nossa situação de crise e incapacidade de lidar com a catástrofe iminente (gerada pela crise climática)."
(Antropólogo)

Crédito: Selvagem ciclo de estudos sobre a vida

Ele também foi lembrado por ser “pioneiro e inovador no uso de meios de comunicação para a desconstrução de estereótipos sobre os povos indígenas no Brasil”. Nos anos 1980, foi um dos apresentadores do “Programa de Índio”, transmitido pela Rádio USP, e, em 2000, da série “Índios no Brasil”, uma produção da “Vídeo nas Aldeias” para a TV Escola. Mais recentemente, fez a consultoria para a criação e escolha de personagens para “Falas da Terra”, especial da TV Globo exibido em abril de 2021, com 21 depoimentos de indígenas em primeira pessoa e participação de cineastas e artistas indígenas como coautores.

O manifesto xamânico de Davi Kopenawa

Crédito: Terre Humaine Poche

Publicado na França em 2010 e no Brasil em 2015, “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, é resultado de um trabalho conjunto de mais de 30 anos. O livro, que já vendeu mais de 30 mil cópias no Brasil, é descrito como um “relato excepcional, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da Floresta Amazônica”.

“‘A Queda do Céu’ é o maior dos marcos. Davi tomando o lugar do antropólogo. Você entra no mundo da cosmologia Yanomami, no lugar deles no mundo, mas também no lugar dos brancos no mundo. Ele avisa que o céu vai cair, mas sempre faz um convite. Não diz ‘vocês são os culpados’, ou ‘saiam daqui’. Ele não faz isso, mas convida a gente a escutar os espíritos, os povos originários e a natureza, e a lembrar e escutar também nossos espíritos. Às vezes, pensamos em narrativas dos povos originários como algo do passado, mas o livro contém uma força dramática extremamente contemporânea. Não há futuro sem eles.”
(Artista)
“O livro do Davi Kopenawa é um acontecimento, uma obra-prima, um mergulho na subjetividade e na cosmovisão indígena.”
(Escritora)
“De um lado, o Davi Kopenawa e o antropólogo Bruce Albert, por meio do ‘A Queda do Céu’, e de outro, Ailton Krenak e seus livros que vendem de uma maneira excepcional, ambos tratam profundamente de crise climática, da crise humanitária. A mensagem que eles fizeram é muito diferente, construída de maneira diferente, em estilos diferentes, com mediações também diferentes, e ambos são marcos muito específicos desta década.”
(Antropóloga)
“É importantíssima a contribuição desses livros, tanto do Ailton Krenak quanto do Davi Kopenawa, que são livros que vão além do âmbito estrito, digamos assim, de quem trabalha com esses assuntos, de quem toma esses assuntos como a sua própria pesquisa. São trabalhos que estão influenciando outras áreas, como a literatura, as artes plásticas e o teatro. Eles têm um extravasamento para além do seu campo.”
(Escritora)

O livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, por exemplo, inspirou o espetáculo “Before the Sky Falls”, da dramaturga e diretora teatral Christiane Jatahy, e o espetáculo de dança “Para Que o Céu não Caia”, de Lia Rodrigues, por exemplo.

No cinema, a obra inspirou os filmes “A Última Floresta”, do diretor Luiz Bolognesi, que tem Davi Kopenawa como corroteirista, e, mais recentemente, o filme “A Queda do Céu”, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, em fase de produção.

Legenda: A literatura indígena: conhecendo outros brasis

Crédito: TEDx Talks

Em 2012, o ‘artivista’ Jaider Esbell (falecido em 2021) publicou o seu primeiro livro, Terreiro de Makunaima – Mitos, lendas e estórias em vivências, no qual se identifica como neto de Macunaíma e defende a reapropriação da figura pelos indígenas, muito diferente do anti-herói de Mário de Andrade. Na cultura macuxi, Makunaima é um dos filhos do Sol, responsável pela criação mítica de todas as plantas comestíveis existentes na floresta.

No livro Literaturas da Floresta: Textos Amazônicos e Cultura Latino-americana, a professora de estudos brasileiros da Universidade de Manchester Lúcia Sá analisa como narrativas indígenas influenciaram autores sul-americanos, como as coletadas pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, que tiveram enorme impacto sobre o autor de Macunaíma, Mário de Andrade.

Crédito: Editora Cromos

Ainda assim, um dos antropólogos entrevistados destacou que ainda “são pouquíssimas as traduções, os estudos densos, detalhados, sobre narrativas ameríndias no Brasil, análogos aos que a gente encontra, por exemplo, sobre as culturas clássicas, da Grécia arcaica e tantas outras”.

A ancestralidade, as cosmovisões indígenas e as críticas ao colonialismo têm sido também tema de obras de escritores brasileiros não indígenas, como o best seller “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior, que, em 2020, recebeu o Prêmio Jabuti de melhor romance literário e, em 2021, foi o livro mais vendido na Amazon Brasil; “O Som do Rugido da Onça”, de Micheliny Verunschk, que conta a história das crianças indígenas sequestradas por Carl Martius e Johann Spix no início do Século XIX, a partir do ponto de vista de Iñe-e, menina do povo Miranha; e “Terra Preta”, romance de estreia de Rita Carelli sobre uma adolescente de classe média de São Paulo que mergulha na cosmovisão indígena quando passa a morar em uma aldeia indígena do Alto Xingu, onde seu pai, um arqueólogo, busca pistas sobre a ocupação humana milenar da região.

“Acho que parte do sucesso de ‘Torto Arado’ é justamente a clareza e a forma eloquente no trato de temas como a questão identitária, de gênero, de raça e da terra. Aquele final é um final inconformista como poucos na literatura brasileira. Acho que o ‘Torto Arado’ lança luz sobre os temas que a gente quer discutir hoje, que são identidade, gênero, raça, a nossa história e problemas que não mudam, como a posse de terra no país. E aí tem outros temas que são momentosos, mas importantes, como a questão da democracia, da liberdade individual, desse revival de ditadura que se assanha pra gente.”
(Editor)
“Tudo que é agenda decolonial, anticolonial, antirracista está em voga. Acho que esses temas são os temas para o Brasil neste momento.”
(Editor)
Crédito: divulgação
Crédito: divulgação
Crédito: divulgação

O PIONEIRISMO DO VÍDEO NAS ALDEIAS

A contribuição do antropólogo, indigenista e documentarista franco-brasileiro Vincent Carelli, enquanto precursor da formação de cinemas indígenas no Brasil, foi destacada por entrevistados indígenas e não indígenas — até mesmo entre aqueles que não foram formados por ele. Em 1987, Vincent Carelli criou a organização não governamental Vídeo nas Aldeias. Autodidata, Vincent Carelli começou a fazer cinema a partir do seu envolvimento com os índios e do desejo de registrar o que ele estava vivendo como indigenista. Como ele mesmo descreve, o seu cinema “nasce do encontro, do trabalho na relação e, sobretudo, a partir da reflexão sobre o que a elaboração de imagens despertam nos indígenas e o que é gerado a partir dali, da própria fricção com a vida, com suas urgências e com os desejos das comunidades e dos indígenas que se envolvem”.

“A gente tem que tirar o chapéu para o trabalho inicial que o Vincent fez, que é maravilhoso.”
(Jornalista)
“O Vídeo nas Aldeias foi uma iniciativa pioneira, ali desde o começo dos anos 2000, que tem aqueles primeiros filmes ainda em parceria da Dominique Gallois. O cinema até pela própria multiplicação do acesso aos celulares e tal, pela facilidade de uso dessas tecnologias, que antes eram muito caras e muito restritas, elas também incidiram numa multiplicação de filmes muito interessantes feitos e protagonizados por indígenas.”
(Antropóloga)
“O Vídeo nas Aldeias foi precursor. Hoje, o cinema indígena evoluiu em sentidos mais artísticos, mais políticos, mais aguerridos. Não é que o audiovisual vai salvar as línguas e as culturas, mas pode somar.”
(Cineasta indígena)
“Vi um filme do Vincent Carelli no Cine Kurumin. Ele já tinha filmado as comunidades e volta anos depois para mostrar os filmes e eles percebem quantos elementos da cultura foram perdidos. Depois dele mostrar tudo gravado, eles passam a resgatar cantos esquecidos. É muito lindo!”
(Cineasta indígena)

O projeto Vídeo nas Aldeias, que comemorou 35 anos em 2021, conta com um acervo único, precioso e histórico de imagens sobre os povos indígenas no Brasil — uma coleção de mais de 70 filmes, mais de 60 prêmios entre festivais nacionais e internacionais e muitas horas de filmagens ainda a ser digitalizadas e catalogadas, mas sem apoio financeiro para a condução dessas atividades no momento.

Crédito: Sheffield DocFest

Além da diversidade de formatos e de linguagens, os cineastas indígenas falaram sobre o cinema como instrumento de luta e de resistência e como uma obra de produção coletiva.

“O cinema indígena hoje tem essa diversidade grande porque são várias histórias, vários pensadores. A gente vê um performer fazendo cinema, vê os artistas fazendo cinema, vê vários filmes, tem também os documentários em off. Antes, a gente só fazia cinema assim, ou assado. Hoje, não. Os rituais fazem parte da nossa vivência, a gente coloca sim, mas também tem essa coisa da resistência, da nossa organização.”
(Cineasta indígena)
“A gente assina os nossos trabalhos coletivamente e só faz sentido assim. Se eu quiser fazer um filme da minha mãe e ela não quiser participar, não tem filme. Se eu quiser fazer um filme sobre as mulheres Guarani e sobre a dinâmica dessas mulheres e elas não quiserem participar, não tem filme. Não há filme possível que não seja profundamente coletivo.”
(Cineasta indígena)
“Muitos artistas indígenas, atores, fotógrafos, cineastas, a retomada do cinema indígena é muito importante, essa apropriação, essa tomada do audiovisual como um instrumento de luta e resistência que vários parentes estão fazendo.”
(Fotógrafo indígena)

Legenda: “A Casa dos Espíritos”

Crédito: Teaser primeira temporada da série Aruanas

Alguns dos cineastas indígenas ouvidos também mencionaram que estão interessados em experimentar linguagens e formatos, para além do cinema documental.

“Quero migrar para a ficção, experimentar o vídeo performático, mas sem perder o viés político e de engajamento. Tenho um projeto quase pronto de um longa de ficção e estou terminando um outro projeto agora.”
(Cineasta indígena)
“Eu quero fazer um filme de ficção, sem personagens indígenas. Outra coisa que quero fazer é um filme de animação para crianças. Tem muito a ver com as coisas de que eu gosto da natureza. Mas não sei como funciona o processo, nunca fiz.”
(Cineasta indígena)

A potência, a beleza e as provocações da arte indígena contemporânea

A última década também foi marcada pela criatividade e sofisticação do trabalho de artistas indígenas como Jaider Esbell, Denilson Baniwa, Daiara Tukano, Gustavo Caboco, entre outros, e pela ocupação da arte indígena nas principais instituições de arte do país (Museu de Arte Moderna de São Paulo, Pinacoteca de São Paulo, Bienal de São Paulo, Instituto Goethe, Museu de Arte do Rio), questionando e desafiando os mecanismos da arte contemporânea e colocando em pauta discussões também sobre o que é entendido por arte no Brasil.

“A arte indígena sempre existiu no Brasil e a gente precisa fazer com que as pessoas compreendam isso. É preciso demarcar o espaço dos indígenas na história da arte do Brasil como um todo, não só por um período.”
(Curadora/pesquisadora/artista indígena)
“Não confundir a arte indígena contemporânea com arte contemporânea indígena. Eles ficam muito bravos. Não são indivíduos que aparecem produzindo a partir dos marcos da arte contemporânea geral, né? Ao contrário, eles vêm de um legado, da arte indígena contemporânea, que é anterior e que é autônomo com relação à arte contemporânea global. O Jaider Esbell e a Daiara Tukano são dois entre vários que reivindicam para si a continuidade de uma trajetória muito antiga, secular, de produção estética, que é muito mais antiga do que a própria noção de arte moderna brasileira. Eles reivindicam esse legado, que é um legado plástico, estético e político ao mesmo tempo, para tratar da sua presença e da sua forma de atuação no mundo de hoje, de uma maneira articulada, sem que isso se confunda com a produção individual de artistas contemporâneos.”
(Antropólogo)
Legenda: Vista da exposição “Véxoa: Nós sabemos”, com máscaras e roupas do povo Wauja
Crédito: Levi Fanan
“Como aprender com os indígenas outras formas de expor, de circular esses trabalhos, que tenham mais a ver com o entendimento deles e que seja menos fragmentado entre arte e vida?”
(Produtora cultural)
Crédito: Levi Fanan

Há inúmeros exemplos icônicos de mais espaço para arte indígena por instituições culturais no país. Nos últimos anos, diversos artistas indígenas vêm sendo indicados ao Prêmio Pipa, um dos mais importantes do país. Em 2019, a antropóloga Sandra Benites se tornou a primeira curadora indígena do Museu de Arte de São Paulo e, em 2020, a pesquisadora e artista educadora Naine Terena foi responsável pela curadoria de “Véxoa: Nós sabemos”, primeira exposição de arte indígena da Pinacoteca de São Paulo, que contou com a presença de 23 artistas/coletivos de diferentes regiões do país, apresentando pinturas, esculturas, objetos, vídeos, fotografias, instalações, além de uma série de ativações realizadas por diversos grupos indígenas. No ano seguinte, a “34ª Bienal de São Paulo – faz escuro mas eu canto”, que contou com cinco indígenas brasileiros – Daiara Tukano, Sueli Maxakali, Jaider Esbell, Uýra e Gustavo Caboco –, passou a ser chamada também de a Bienal dos Índios. Paralelamente à Bienal, foi organizada a mostra coletiva “Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea”, uma correalização com o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, com curadoria de Jaider Esbell.

Crédito: Reprodução Instagram
Crédito: Reprodução Instagram
Crédito: Reprodução Instagram
Crédito: Reprodução Instagram
Crédito: Reprodução Instagram
“O que chama mais a atenção são os trabalhos do Denilson e do Jaider. Eles têm uma combinação interessante e original do tradicional com o contemporâneo e são sempre carregados de críticas à compreensão, tratamento dado aos povos tradicionais e questionam conceitos como o de civilização e progresso. São sempre trabalhos que nos provocam e nos fazem pensar.”
(Jornalista)
“Denilson Baniwa é hoje o maior artista brasileiro.”
(Comunicólogo)
“A obra e o discurso do Jaider Esbell são de uma sofisticação impressionantes.”
(Curador)
“A gente tem aí artistas se destacando nas principais exposições de arte contemporânea. O Jaider Esbell, por exemplo, que é um artista Makuxi e um dos principais artistas da Bienal de São Paulo. Tem a Naine Terena, que fez a curadoria de uma exposição maravilhosa na Pinacoteca, entre outros casos que mostram que a gente tem uma tomada de voz e de espaços por pensadoras indígenas no Brasil.”
(Curador)
“Hoje você tem, nas artes plásticas, uma crescente presença indígena. Denilson Baniwa, Jaider Esbell, Daiara Tukano. Eles todos têm um discurso de uma sofisticação incrível. A crítica ao modernismo paulista feita de dentro pelo Jaider e pelo Denilson é um negócio espetacular.”
(Antropólogo)
“Acho que a arte indígena contemporânea surpreende muito as pessoas, surpreende o status quo (...), surpreende pela presença. Quando essas pessoas se fazem presentes nesses espaços, elas se fazem presentes com as suas histórias e com as suas implicações políticas. Sueli e Isael Maxakali são grandes mestres nesse sentido, porque são de um dos povos indígenas que demonstrou maior resiliência à guerra colonial. Os Maxakali foram reduzidos a poucas pessoas e hoje têm uma das produções artísticas mais numerosas e expressivas entre esses mesmos povos — desde a produção tradicional das miçangas, dos filmes, das fotografias, dos desenhos. Eles são incansáveis.”
(Curadora)

Crédito: Casa 1

A arte indígena, “esse universo vasto, complexo, antiquíssimo de produção de sentido”, foi apontada como “antídoto contra as muitas crises que estamos vivendo, e também contra a crise de imaginação”.

“A gente tem que ser capaz de apresentar a luta identitária como parte de uma luta muito mais ampla. Tenho que ser capaz de entender que numa mesma sociedade podem conviver pessoas muito diferentes, negras e brancas e indígenas e não indígenas. A gente tem que ter esse aprendizado e ele tem que ser através dos mecanismos da cultura, da educação, do cinema, das artes plásticas, da poesia, da literatura. A gente tem que usar todo o nosso arsenal cultural para formatar novas visões do mundo, novos cidadãos brasileiros.”
(Cientista político)
“A gente vai ter que sair do pragmatismo, da pressa que movimenta a nossa organização do tempo, de agenda e de cronograma e entender que é preciso estar junto num espaço dilatado e de uma maneira ampla. É sobre a possibilidade de fazer aliança de maneira irrestrita. Não é uma aliança só entre humanos, entre curadores e artistas indígenas, entre antropólogos e artistas, não é sobre isso. É pensar que a gente tá nesse contexto de colapso climático e que os povos indígenas são grandes especialistas na comunicação com outras formas de inteligência, outras formas de vida. Eles sabem falar com as plantas, eles sabem falar com a chuva, eles sabem falar com a terra e essa tecnologia de comunicação extra-humana é chave pra gente atravessar a Covid-19, a queda do céu e pra gente atravessar o bolsonarismo, sabe?”
(Antropólogo)

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