Mídias e influenciadores indígenas

Capítulo 11

Mídias e influenciadores indígenas

pra você que tá sem tempo...

O maior acesso à internet e a aparelhos smartphones e a apropriação das redes sociais foram o principal destaque nas respostas dos indígenas e dos públicos engajados/interessados como uma das “mudanças mais significativas” da última década. 

Indígenas "demarcando telas” foi descrito como um “fenômeno muito recente, mas de proporção, certamente, histórica”. As redes sociais possibilitou uma comunicação “direta”, “imediata” e “sem mediações” com a sociedade, “diminuindo o fosso de desconhecimento”, “dando mais visibilidade às lutas, às artes e aos saberes indígenas”, “confrontando e combatendo visões preconceituosas e deturpadas” e “denunciando casos de violações de direito, invasões de territórios e racismo”, por exemplo.

A liderança indígena Sônia Guajajara foi apontada como a liderança indígena com maior número de seguidores nas redes sociais. “Ela tem quase 400 mil seguidores só no Instagram.” 

A comunicadora Alice Pataxó, com mais de 107 mil seguidores no Twitter e 135 mil no Instagram, foi um dos nomes mais lembrados pelos entrevistados engajados. @alice_pataxo foi também identificado como o principal perfil do debate sobre povos indígenas no Twitter entre janeiro e maio de 2021, de acordo com o levantamento da DAPP/ FGV. 

Com mais de 150 mil seguidores no Instagram, Tukumã Pataxó, diretor de comunicação da Associação de Jovens Indígenas Pataxó (Ajip) e colaborador do Mídia Índia, foi incluído na edição especial Wired Festival Brasil – Uma Viagem Pela Criatividade Brasileira em 50 nomes. Junto com Célia Xakriabá, doutoranda em Antropologia Social pela UFMG e uma das fundadoras da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), Tukumã apresenta o primeiro podcast indígena da Globoplay, o “Papo de Parente”. 

Os influenciadores indígenas têm sido convidados a falar sobre representatividade e a fazer campanhas publicitárias, como a da Risqué com Alice Pataxó e a da água Ama da Ambev com Tukumã Pataxó. 

Tukumã Pataxó se juntou ao casting da Map Brasil, agência especializada em estabelecer negócios e relações entre marcas, artistas e personalidades do entretenimento. Ele é também parceiro institucional e porta-voz do Digital Favela, plataforma criada para aproximar influenciadores de comunidades carentes de todo o Brasil e anunciantes.

Não citada pelos entrevistados, a jovem Tatuyo Cunhaporanga, do Amazonas, tem mais de 525 mil seguidores no Instagram e 6,5 milhões de seguidores no TikTok, ganhou as redes dividindo seu dia a dia na comunidade. 

Entre as mídias indígenas, a Rádio Yandê e a Mídia Índia foram mencionadas como outra mudança significativa da última década. Anápuàka Muniz Tupinambá, coordenador da Rádio Yandê, primeira rádio indígena web do Brasil, acaba de lançar a campanha “Eu quero que a Rádio Yandê continue online”, para a obtenção de doações financeiras para custear a manutenção do servidor e domínio da rádio em 2022. 

A Mídia Índia, protagonizada por jovens indígenas e que “tem como objetivo a garantia de uma comunicação representativa”, foi a página com mais publicações no debate sobre povos indígenas no Facebook e no Instagram em 2020, segundo o levantamento da DAPP/FGV. 

Há diversos coletivos de comunicação surgindo e sendo fortalecidos no país, como a Rede Wayuri, iniciativa com jovens de diversas etnias do Rio Negro, e o Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi, formado por Aldira Akai, Beka Saw Munduruku e Rilcelia Akai.

Uma minoria entre os entrevistados engajados e interessados compartilhou ponderações sobre o uso das redes sociais pelos indígenas. “Junto com a internet, chega o WhatsApp, o YouTube, não sei o quê, e aí, quando você vai ver, os velhos estão todos esquecidos, sem a atenção dos jovens, sem ter com quem conversar e com essa forma de educação intergeracional muito fragilizada.”

O racismo, mais uma vez, apareceu como questão, seja porque alguns dos influenciadores indígenas produzem conteúdo justamente para enfrentá-lo, seja pelos ataques que sofrem por estarem nas redes. “Eu convido os estudiosos do ódio a verificar o que é dito sobre os indígenas no Brasil. Eles devem ser, de longe, os mais odiados, os mais perseguidos nas redes (...) Eles são bombardeados pelo ódio, pelo preconceito, bombardeados.”

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O maior acesso à internet e a aparelhos smartphones e a apropriação de aplicativos como o WhatsApp e das redes sociais foram frequentemente o principal destaque nas respostas de indígenas e públicos engajados/interessados como uma das “mudanças mais significativas” da última década.

Os indígenas "demarcando as telas” foi descrito como um “fenômeno muito recente, mas de proporção, certamente, histórica”, por representarem um canal “direto”, “imediato” e “sem mediações” de comunicação com a sociedade, que permite “informar e diminuir o fosso de desconhecimento”, “dar mais visibilidade às lutas, às artes e aos saberes indígenas”, assim como “confrontar e combater visões preconceituosas e deturpadas” e denunciar casos de violações de direito, invasões de territórios e racismo, por exemplo.

Para demonstrar quão significativa tem sido essa mudança, alguns dos entrevistados lembraram tempos em que a comunicação dos indígenas com a sociedade envolvente era restrita e mediada por canais de radiofonia da Funai.

“Acho que a grande novidade é essa visão que eles têm de rede, da importância de se falar, de estarem conectados. Antigamente, para falar com uma aldeia, a gente tinha que falar via rádio. Tinha uma central de rádio em Brasília, você ligava para a central, e a central ligava para o posto indígena. A central precisava soltar, lembra? Soltar o rádio, segurar o rádio, soltar o rádio. Tinha o sinal para você falar, aí o indígena falava. E quase nunca era o indígena que falava, porque o rádio estava sob controle de Funai. Eu percebia que a Funai escolhia quem ela queria que falasse no rádio. Era controle da informação.”
(Jornalista)
“Na época da Constituinte, como é que a gente se comunicava? Era uma dificuldade enorme, a gente usava telefone e fax. E, nas aldeias, nas comunidades, os povos ficavam sabendo das coisas muito depois e por meio de nós, pelos servidores do Executivo, pela Funai. Antes disso, tinha também aquela história de falar pelo rádio. Hoje em dia, isso acabou. Eles têm acesso à internet, com muita dificuldade ainda em alguns lugares, mas isso chegou para ficar. A internet abre o mundo para eles, que não precisam mais da gente pra fazer essa comunicação.”
(Antropólogo)

Os indígenas à frente das narrativas sobre si próprios, ampliando a interlocução com não indígenas e aliados, desconstruindo estereótipos, dando mais visibilidade às suas demandas e aos seus direitos, fortalecendo o movimento indígena, construindo novos projetos, expandindo redes de apoio, denunciando violações de direitos, registrando seus rituais, línguas, cotidianos. Esses foram os principais ganhos atribuídos ao uso da internet e das redes sociais.

Além disso, foi descrito que há uma melhor compreensão e reconhecimento por parte das lideranças e do movimento indígena da importância da comunicação nas redes sociais para o fortalecimento político, sobretudo num momento mais desfavorável no âmbito macropolítico e para alcançar a opinião pública de forma mais ampla.

“​​Nos últimos anos, percebo um fortalecimento muito grande da visibilidade da luta indígena, muito capitaneada pelas redes sociais, pela ampliação da presença das próprias organizações indígenas nas redes, no mundo digital como um todo.”
(Antropóloga)
Crédito: Reprodução instagram
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“Agora nós mesmos podemos falar sobre o nosso povo, sobre a nossa cultura, sobre nossa identidade, como protagonistas da nossa história. Por muito tempo, a história foi contada por quem viu e não por quem viveu.”
(Comunicadora indígena)
“Eles são o lado positivo da revolução tecnológica. Eles dominaram facilmente a tecnologia, fizeram uma apropriação saudável dela. A luta indígena tomou os aparatos dos brancos, agora está construindo suas narrativas para lutar pelos territórios e pela sua autonomia. O celular é o novo arco e flecha.”
(Cineasta)
“Nos últimos anos, vejo indígenas mais presentes nas redes sociais, explicando, se posicionando sobre várias coisas, falando sobre como se enxergam, sobre o que vivenciam em suas comunidades. Esse é um avanço muito importante. A gente começou a ter a confiança de que as pessoas querem nos ouvir e que elas também vão respeitar o nosso jeito de falar, de nos apresentar.”
(Influenciadora indígena)
“A Sônia Guajajara talvez seja hoje a liderança indígena com maior número de seguidores nas redes sociais. Ela tem quase 400 mil seguidores só no Instagram. A gente tá falando de uma das maiores lideranças indígenas do mundo em termos de seguidores nas redes sociais, de relevância, de capacidade de influência.”
(Ativista)
“As redes sociais têm se tornado muito importantes, ainda mais no contexto da pandemia. O movimento indígena foi pioneiro na mobilização online durante a Covid-19, ocupando e demarcando as telas, organizando campanhas emergenciais, reunindo dados. Enquanto a sociedade continua a ver o indígena como um ser primitivo, que não deve ter acesso à tecnologia, nós estamos dando um exemplo de como acessar de forma qualificada esses meios de comunicação.”
(Liderança indígena)
“Cada vez mais, os indígenas estão se colocando, sem mediadores, falando sobre seus conhecimentos e seus modos de vida. Vai ficando cada vez mais difícil você reiterar essas imagens de uma certa pureza, de que os indígenas são seres intrinsecamente ecologistas e que vivem em oposição a tudo que diz respeito às tecnologias, às mercadorias etc. Acho que esse discurso vai ficando cada vez mais antigo frente a essas novas narrativas. Claro que ainda tem muito o que se avançar nesse campo, mas se está caminhando.”
(Antropóloga)

Crédito: Wari'u

“O que tem de mais potente são esses criadores indígenas, não necessariamente os chamados influencers, mas lideranças que estão se colocando nas redes sociais, como a Sônia Guajajara. Não são jovens, mas são lideranças que têm uma narrativa muito firme e concepções das questões indígenas muito amplas, são muito experientes. O conteúdo sobre povos indígenas é muito impulsionado por esses criadores. Há pelo menos 25 nomes com mais de 50 mil seguidores no Instagram hoje. O Twitter também tem uma grande quantidade de influenciadores digitais. Isso tem sido uma forma de lidar com essas ondas de desinformação.”
(Influencer indígena)
“Quanto mais as pessoas se envolvem com essa questão de cultura, mais elas entendem, mais elas querem saber, mais respeitam a cultura do outro. Faz muito parte do nosso trabalho, a gente fala sobre culturas indígenas, a gente apresenta diversidade e coisas que normalmente as escolas não abordam. Eu acho que isso é o que gera mais engajamento na minha rede hoje.”
(Influenciadora indígena)
“Acho que tem um pouco um ranço de esquerda nesse discurso todes, todes nós e acho que alguns dos indígenas das redes sociais foram capturados por essa coisa identitária, um pouco chata, sabe? Mas acho que são super importantes as mensagens sobre direito a território, sobre autonomia, sobre o fato de eu usar um celular não me torna menos índio.”
(Jornalista)
“Uma coisa que tem me chamado a atenção, sobretudo no TikTok e no Instagram, é a quantidade de jovens indígenas ocupando lugares não convencionais. Eles estão falando sobre poesia, feminismo, política, temas que lhes interessam, e não estão restritos às questões indígenas, mas, claramente, estão se colocando a partir da sua cultura, da sua referência, da sua identidade, ainda não presos à militância.”
(Empreendedor)
“Os influenciadores têm atraído muitos seguidores que não são indígenas. Estão ensinando uma série de coisas para as pessoas, escancarando o preconceito, fazendo elas refletirem. Acho que aos poucos estamos desmistificando o que é o indígena contemporâneo.”
(Cineasta indígena)

A ativista e comunicadora indígena Alice Pataxó, com mais de 107 mil seguidores no Twitter e 135 mil no Instagram, foi um dos nomes de influenciadores digitais mais citados por entrevistados engajados e empáticos.

@alice_pataxo também foi identificado como o principal perfil do debate sobre povos indígenas no Twitter entre janeiro e maio de 2021 e esteve entre os principais no período analisado, de acordo com o levantamento da DAPP/FGV – mais em Redes sociais.

Crédito: Instituto Socioambiental (ISA)

A Rádio Yandê e a Mídia Índia foram citadas por uma pequena parcela de públicos engajados como uma outra mudança representativa da última década. 

“As redes sociais possibilitaram a difusão de informações importantes, com canais diretos. Rádio Yandê e Mídia Índia ganharam força a partir do Facebook.”
(Escritora/cineasta)
“A Rádio Yandê e a Mídia Índia são iniciativas muito importantes de luta política, de visibilização de conquistas, mas acho que ainda são feitas para falarem entre eles do que para falarem com públicos externos.”
(Artista)
“O negócio seria ver quem poderia investir e negociar para a Yandê estar na programação da rádio CBN.”
(Comunicador)
“Mais que uma rádio, Yandê é um projeto educacional, de comunicação, artístico, pedagógico. É um espaço único e inédito no Brasil, dedicado 24 horas por dia para músicas e criações indígenas.”
(Jornalista indígena)
“O que mais me chama atenção, acho que até porque tem uma cobertura permanente, contínua, é a produção da Mídia Índia. Essas novas formas das pessoas terem notícia a respeito de questões indígenas, enfim, acho que são estratégias bem incríveis.”
(Comunicóloga)
“Os jovens estão muito ativos, é muito impressionante. Muitas vezes transitam entre os territórios e cidades, produzem e reproduzem muitos conteúdos. Poderia citar, por exemplo, o Mídia Índia e o Eric Marky, que é um dos seus idealizadores.”
(Liderança indígena)
“Acho que ainda é muito nicho, ainda está muito setorizada, mas a Mídia Índia tem feito uns trabalhos incríveis."
(Cineasta)
“As organizações independentes como Mídia Índia têm tido uma ótima participação, mas ainda falta um pouco de aprofundamento jornalístico.”
(Doadora internacional)

A Mídia Índia, protagonizada por jovens indígenas que “contribuem para romper uma comunicação hegemônica e não participativa e que tem como objetivo a garantia de uma comunicação representativa”, foi fundada no Acampamento Terra Livre de 2017 por Erisvan Bone Guajajara.

Erisvan Guajajara, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão, é ativista do movimento indígena, colaborador de comunicação da Rede de Juventude Indígena, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

Com colaboradores ao redor do país, como Priscila Tapajowara, Rodrigo Tremembé e Lídia Guajajara, a Mídia Índia lançou no início de 2022 diversos novos conteúdos e programas, como “Curiosidade dos povos indígenas”, “Saberes e Sabores Indígenas” e “Respeite o nosso Sagrado”. 

A iniciativa, que em 2020 foi a vencedora da 19ª edição do Prêmio Joan Alsina de Direitos Humanos, conta atualmente com 165 mil seguidores no Instagram, 60 mil  no Facebook e 13 mil no Twitter. 

A Mídia Índia é a página com mais publicações no debate sobre povos indígenas no Facebook e no Instagram em 2020 e 2021 e a sexta com mais engajamento no Instagram em 2020 e 2021, segundo o levantamento da DAPP/FGV – mais em Redes Sociais.

Crédito: Mídia Índia
Crédito: Mídia Índia
Crédito: Mídia Índia
Crédito: Mídia Índia
Crédito: Mídia Índia
Crédito: Mídia Índia

Criada em 2013 para a difusão da cultura indígena, a Rádio Yandê, que teve como fundadores a jornalista e curadora Renata Tupinambá, o artista Denilson Baniwa e o comunicador Anápuàka Muniz Tupinambá Hã hã hãe, é a primeira rádio indígena web do Brasil.

Em 2021, a artista, comunicadora e educadora Daiara Tukano, que já foi coordenadora da Yandê, apresentou uma série de lives no Facebook da Rádio Yandê durante o Abril Indígena, discutindo temas como a urgência da descolonização, soberania alimentar, indígenas LGBT. 

Em fevereiro de 2022, Anápuàka, atual coordenador da rádio, lançou a campanha “Eu quero que a Rádio Yandê continue online”, para a obtenção de doações financeiras para custear a manutenção do servidor e domínio da rádio em 2022. 

Crédito: Reprodução Instagram

Há ainda diversos coletivos de comunicação surgindo e sendo fortalecidos no país, como a Rede Wayuri, iniciativa com jovens de 10 etnias do Rio Negro, no Amazonas, que completa cinco anos em 2022 e eleita pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) como um dos 30 heróis da informação em nível mundial; e o Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi, formado por Aldira Akai, Beka Saw Munduruku e Rilcelia Akai, cujo projeto de curta-metragem “Autodemarcação e Fiscalização da TI Sawré Muybu” foi um dos sete selecionados para o Climate Story Lab Amazônia em 2021. 

As redes de comunicadores foram descritas como estratégias que transcendem a comunicação, fundamentais para fortalecer as conexões dos jovens com os conhecimentos tradicionais e com o território, além de oferecer uma fonte de renda.

“A Rede Wayuri é uma coisa fantástica. Essa é uma rede de comunicadores que têm produzido uma vez por mês um boletim, que é o Jornal Nacional deles. Uma experiência inédita, em São Gabriel da Cachoeira, que é o município mais indígena do Brasil, um município que não tem nenhuma afiliada de televisão, tem uma rádio local, com uma hora de conteúdo local só, o resto é transmissão do Rio de Janeiro.”
(Assessora de Comunicação)
“Começamos a pensar como seria fazer um jornal que integrasse alunos que estavam fazendo esses cursos e virássemos uma rede de comunicação. Foi criado um jornal e um programa de rádio em São Gabriel da Cachoeira. Foi esse movimento que deu origem à Rede de Comunicadores de Jovens Indígenas Wayuri. Eles criaram um método genial de comunicação que é o Fala Parente, pelo WhatsApp, o meio de comunicação mais eficiente hoje. Ainda me chama atenção como se articulam para fazer suas oficinas, seus projetos.”
(Artista indígena)
“A questão da comunicação surgiu como uma saída mesmo, tendo em vista que os jovens têm interesse pelo uso da tecnologia, pelo celular, e isso coincide com a ideia de dar a voz a eles. É uma coisa super interessante, que emerge como uma oportunidade convergente de diferentes demandas e possibilidades. E estamos vendo isso se reproduzir em diferentes frentes. Agora durante a Covid foi algo que mobilizou bastante a juventude.”
(ONG nacional)

Crédito: Enfrente

Vida comunitária e intergeracional, racismo e acesso à internet

Uma minoria entre os entrevistados engajados compartilhou ponderações sobre o uso das redes sociais pelos indígenas, com reflexões que muito se assemelham às que são dirigidas também ao restante da sociedade.

“O acesso à internet possibilita uma movimentação e um trânsito de informações, de saberes, que é super importante, especialmente nesse momento em que as comunidades indígenas são cada vez mais alvo dessa guerra contra elas e seus territórios. Além disso, tem ajudado a criar novas formas de comunicação, como a Rádio Yandê. Ela (a internet), entretanto, também pode contribuir para fragilizar ainda mais aspectos da vida das comunidades. Junto com a internet, chega o WhatsApp, o YouTube, não sei o quê, e aí, quando você vai ver, os velhos estão todos esquecidos, sem a atenção dos jovens, sem ter com quem conversar e com essa forma de educação intergeracional muito fragilizada. Como sabemos, essas tecnologias roubam mesmo a nossa atenção. Eu fico pensando nesses trânsitos entre mundos e acho que eles funcionam como armadilhas. E qual é a diferença entre a caça e o caçador, diante de uma armadilha? É quem cai nela, né? E quem mobiliza ela, no sentido de que seja útil para alguma coisa. Acho que essas coisas todas são muito ambíguas, elas sempre vão trazer pequenos cavalos de Tróia dentro de si. Então, como cuidar disso? Acho que aí está a grande maestria das lideranças.”
(Curadora)
“Melhor ter influencers indígenas que influencers cowboys. Os indígenas têm que fazer o que quiserem. Se quiserem tecnologia, que usem, claro. Não dá pra ser paternalista, mas a máquina publicitária engole, ela tem muita força e pode capturar a nossa potência. Às vezes, a gente se acha mais esperto que o capitalismo, só que ele obriga a gente a se enquadrar.”
(Artista)
“É importante agir de todos os lados, para que a gente combata a monocultura, mas, às vezes, esse ativismo digital não colabora com o fortalecimento da base. ​​O que adianta a demarcação do território se eu não souber as coisas dos mais velhos que estão indo embora? Se o meu povo não estiver falando a minha língua? Então, o cara vai ficando numa comunidade super ferrada, tendo que batalhar e o batalhar por aquilo vira o ganha pão dele.”
(Editora)

O racismo, mais uma vez, apareceu como questão, seja porque alguns dos influenciadores indígenas produzem conteúdo justamente para enfrentá-lo, seja pelos ataques que sofrem por estarem nas redes.

“Os influenciadores ocupam muito bem esse espaço online. Mas não fugimos de certas responsabilidades e armadilhas. O racismo é muito cruel nesse campo. A internet é terra de ninguém.”
(Cineasta indígena)
“Eu convido os estudiosos do ódio a verificar o que é dito sobre os indígenas no Brasil. Eles devem ser, de longe, os mais odiados, os mais perseguidos nas redes. Eu passei três dias vasculhando, é perplexo, inumano, aberrante. Acho que nem no século 16 as pessoas falavam o que estão falando hoje sobre os indígenas. ‘Vamos atropelá-los, vamos metralhá-los', coisas assim. Eu me lembro que caiu um avião e morreu uma indígena grávida e houve uma comemoração, ‘dois a menos’. Eu fico mal só em repetir. Eles são bombardeados pelo ódio, pelo preconceito, bombardeados.”
(Jornalista)
“Acho que deve ser um fardo estar nas redes, porque eles devem sofrer muitos ataques de racismo. Eles têm que explicar muitas coisas, isso deve ser cansativo, pesado e violento.”
(Cientista)
“Eu fui pra escola muito ciente do racismo que meus pais sofreram, que eu sofria, muito ciente desse distanciamento. Porque isso se estendeu durante toda a minha vida e, até hoje, nas minhas redes sociais, YouTube, Instagram, Twitter, todas elas têm como mote principal de explicar para as pessoas o que é ser indígena no século XXI.”
(Influenciador indígena)
Crédito: Instituto Socioambiental (ISA)
"Há um racismo disseminado no Twitter. Os índios que queimam a Amazônia, por exemplo. Isso aí foi o dog whistle que o Bolsonaro soltou e que você vê reproduzido demais nas redes sociais. Quando tem prova de vestibular, discussões sobre as cotas pra indígenas, sempre tem uma enxurrada de comentários, que é falso índio, que é burro, que não ia passar sem a cota, que está roubando vaga de gente mais inteligente. E tem aqueles piores, que é alcoólatra, que é ladrão, chama de bugre, os termos mais históricos. São muitas gradações de racismo. Há pessoas dentro do MPF, por exemplo, que estão atentas a isso, mas o sistema de justiça ainda não aborda muito bem essa questão.”
(Assessora de Comunicação)

No artigo "Existência e Diferença: O Racismo Contra os Povos Indígenas”, Felipe Milanez, Lúcia Sá, Ailton Krenak, Felipe Sotto Maior Cruz, Elisa Urbano Ramos, Genilson dos Santos de Jesus sugerem: “um importante trabalho ainda a ser feito, que foi suscitado em nossa pesquisa colaborativa, é a necessidade de uma avaliação e acompanhamento dos caminhos percorridos pelos processos de denúncia formalmente registrados como racismo. Em outras palavras, a partir dos casos de racismo, podemos indagar sobre quais são os caminhos para a efetivação das denúncias que as vítimas encontraram na busca por justiça. Existem ouvidorias eficientes no acompanhamento e encaminhamento desses casos? Os indígenas têm conhecimento sobre quais os canais de denúncia e ouvidorias eles podem recorrer para efetivar denúncias de racismo?”

Legenda: Entrevista com Edson Kayapó para o projeto Racismo e Anti-Racismo: O Caso dos Povos Indígenas
Crédito: Lúcia Sá, Universidade de Manchester
“O trabalho que o movimento negro vem conseguindo fazer de apontar, de demonstrar o racismo institucional contra os negros, eu acho que os indígenas ainda não conseguiram, entendeu? É aquela coisa que está nos mínimos detalhes? A invisibilidade no Brasil pra questão do racismo indígena, acho que é muito maior do que a questão do racismo contra os pretos.”
(Sociólogo)
“Seria ótimo contar com um suporte mais próximo das próprias redes, principalmente voltadas às denúncias de postagens ou qualquer material que seja veiculado dentro dessa rede. Quando existem ataques ligados ao movimento negro, isso é rapidamente tirado dessas redes. Como a discussão sobre racismo voltada à questão indígena é recente nas redes, às vezes, não sabem lidar, não sabem identificar se alguma coisa é racista ou não. Acho que essa proximidade com criadores indígenas seria de grande valia. Às vezes, as pessoas julgam certas postagens como inofensivas, mas, na realidade, são muito violentas.”
(Influenciador indígena)

Apesar da evidente e crescente preocupação com fakes news entre os entrevistados engajados/interessados, apenas uma das entrevistadas mencionou estar começando a desenvolver um projeto de educação midiática para os povos indígenas – mais em Dos muitos desafios.

"A gente saiu para procurar alguém que trabalhasse com educação midiática, a gente convenceu os indígenas a comprar essa ideia, explicando que crianças, filhos da elite de São Paulo, estão tendo educação midiática, portanto, os indígenas também merecem. Esse é o futuro e a gente precisa disso. Foram feitos dois workshops curtos de uma hora, uma hora e meia, tailor made, um para as lideranças e outro para os jovens e a diferença básica entre os dois é que centrava em redes sociais diferentes. Das lideranças, foi basicamente WhatsApp e, dos jovens, incluía também Instagram, TikTok, outras redes que elas usam. ​​De tudo que a gente tentou, acho que foi o mais bacana. Agora a gente quer fazer com nichos. Professores, indígenas da área de saúde, jovens, mulheres.”
(Assessora de Comunicação)
Crédito: Instituto Kabu

O acesso à internet em algumas regiões do país foi apontado como uma limitação, especialmente por entrevistados indígenas.

“A internet representa um risco, mas hoje é também uma necessidade e nos ajuda de várias maneiras. Não podemos evitar, e o acesso ainda continua muito limitado em algumas regiões do país.”
(Liderança indígena)
“Você continua tendo um problema de infraestrutura muito grave no Brasil. Precisamos inclusive de um levantamento mais concreto. Eu não vou ter os números para passar. Esse é o mapeamento que a gente precisa fazer.”
(Jornalista)
“O problema é que não temos uma política de inclusão digital. Houve tentativas de acordos, de criar obrigações para as operadoras de telefonia para que elas, ganhando um espaço onde há muito lucro, por exemplo, fizessem investimentos em lugares onde não há retorno financeiro. Então existem políticas nesse sentido, mas você não vê o cumprimento dessas políticas. Do ponto de vista do mercado, essa é uma questão não resolvida. Do ponto de vista de políticas públicas, são políticas que muitas não vingaram ou não foram cumpridas, não houve fiscalização.”
(ONG nacional)

O projeto “Descolonizando a Internet”, da Whose Knowledge?, busca discutir, problematizar e propor respostas para o que chamam de crise oculta de desconhecimento – “não nos conhecemos adequadamente, nossas histórias e conhecimentos em um mundo rico, diversificado, multilíngue e multicultural. Muitos de nós permanecem invisíveis e não ouvidos, e isso se torna pior quando nossas histórias e conhecimentos estão ausentes online.” Em fevereiro de 2022, a Whose Knowledge, em parceria com o Centre for Internet and Society (CIS) e o Oxford Internet Institute (OII), lançou um relatório sobre o Estado dos Idiomas na Internet

Entrevistados interessados e não engajados e os formadores de opinião, como economistas e os empresários, ainda têm pouco ou nenhum contato com o conteúdo de perfis indígenas nas redes sociais.

“Eu uso Linkedin, é um ambiente mais civilizado. Lá tem muito material de organizações falando em soluções para a floresta.”
(Empreendedor)

Arte, cultura e entretenimento